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É Desporto

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16 de Agosto, 2021

Zakia Khudadadi. História paralímpica apagada pelos talibãs

Rui Pedro Silva

Zakia Khudadadi

Ser mulher no Afeganistão não é fácil, nunca foi. Ser mulher e com uma deficiência no Afeganistão torna-se ainda mais complicado. Mas Zakia Khudadadi estava preparada para dar um pontapé no estereótipo e fazer história nos Jogos Paralímpicos de Tóquio: ia tornar-se a primeira mulher afegã a participar no taekwondo e apenas a segunda na história em todas as modalidades.

Ia. Já não vai. Os talibãs tomaram o controlo do país, a capital Cabul caiu num espaço de horas e os voos comerciais desapareceram. Khudadadi e Hossain Rasouli, homem do atletismo, tinham viagem marcada para Tóquio mas agora já não serve de nada.

Há menos de uma semana, tudo era diferente. Havia esperança. «Quero estar no meio de atletas de todo o mundo e dar o meu melhor», dizia Zakia em declarações ao Comité Paralímpico Internacional.

«Fiquei em êxtase quando soube que tinha recebido um wild card para competir nos Jogos. Esta é a primeira vez que uma mulher vai representar o Afeganistão no taekwondo nos Paralímpicos e estou muito feliz», disse a atleta de 23 anos.

O convite surgiu praticamente em cima da hora e o tempo de preparação foi escasso. Depois de se dedicar à modalidade com Rohullah Nipkai (bronze olímpico em Pequim e Londres) como inspiração, a atleta que nasceu com uma deficiência tinha presença garantida na classe K44 (inclui atletas com amputações de um braço, ou perda de função equivalente, ou ainda a perda dedos dos pés com impacto na habilidade de levantar o calcanhar adequadamente).

«Lembro-me de ver o Nipkai e de ter ficado inspirada. Decidi começar a praticar o mesmo desporto e, felizmente, a minha família também me apoiou. Quero poder estar entre as melhores atletas do mundo a dar o meu melhor. É uma oportunidade para mostrar a minha capacidade e ficarei muito orgulhosa por estar ali», disse.

Agora, tudo mudou. Não vai haver Afeganistão nos Paralímpicos. E pode até deixar de haver Afeganistão para Khudadadi, pelo menos o Afeganistão que permitia que praticasse taekwondo e sonhasse em competir nos Jogos.

O chefe da missão afegã, Arian Sadiqi, reconhece o desgosto que é a ausência confirmada da comitiva. «Durante a era dos talibãs, não se podia competir, especialmente as mulheres. Para mim, é de quebrar o coração. Ela seria a primeira mulher afegã a competir. Ia fazer-se história no taekwondo. A Zakia seria uma excelente modelo para o resto das mulheres do país».

A primeira mulher afegã de sempre nos Paralímpicos foi Mareena Karim. Em 2004, em Atenas, competiu nos 100 metros do atletismo. Já na altura, a sua vida tinha sido marcada pelos talibãs. Mareena vivia com os 18 irmãos em Cabul depois de ter fugido de uma região ocupada.

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