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É Desporto

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Yuzuru Hanyu. Um fenómeno à japonesa

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É muito mais do que um patinador. É mais do que um bicampeão olímpico a fazer história. Hanyu é, aos 23 anos, um dos símbolos mais fortes no Japão e um dos seus atletas mais influentes. Depois de PyeongChang, a fasquia é pessoal mas mais elevada do que nunca: «A minha única motivação agora é conseguir o quádruplo axel». 

 

Uma estrela de outra dimensão

 

A cultura do Extremo Oriente pode ser difícil de entender entre os europeus. Mergulhados num mundo de publicidades eletrónicas, figuras de animação e heróis populares, os japoneses tendem a elevar famosos com sucesso a um pedestal de proporções gigantescas.

 

Seja na representação, na música ou no desporto, o fenómeno de claque e seguidismo por onde quer que se esteja em ação, é impressionante. Na patinagem artística, Yuzuru Hanyu sente-o melhor do que ninguém. E há vários anos.

 

O japonês que nasceu na prefeitura de Miyagi há 23 anos sempre foi obcecado com o pormenor. Em fazer bem, fazer mais, fazer melhor. E, verdade seja dita, em consegui-lo. O sucesso ainda como adolescente, numa modalidade tão dura como a patinagem artística, fez dele o segundo desportista mais famoso do Japão, apenas atrás de Kei Nishikori e à frente de figuras com o rei da ginástica, Kohei Uchimura.

 

O sucesso de Hanyu é incontornável. Campeão olímpico em 2014, na Rússia, tornou-se o primeiro asiático a subir ao lugar mais alto do pódio. E também o mais novo desde Dick Button em 1948. Tinha apenas 19 anos mas já batia recordes do mundo – foi, por exemplo, o primeiro atleta a ultrapassar a marca dos 100 pontos no programa curto – e recordes de… beneficência.

 

[Lista das figuras olímpicas de PyeongChang-2018]

 

O jovem adolescente foi um dos maiores porta-vozes das campanhas de angariação de donativos para as vítimas do terramoto e tsunami de 2011. Apelou às doações, deu a cara e chegou mesmo a organizar eventos de patinagem artística em que atuou a troco do pedido de ajuda. Assim, simples, vincando uma personalidade que lhe foi incutida desde novo pela sua família.

 

Dar está-lhe no sangue. É o que faz também com as centenas de peluches do Winnie the Pooh que recebe após cada atuação. Os fãs fazem-no depois de este ter confessado que a figura o acalmava antes das grandes provas mas Hanyu não teria mãos a medir se os guardasse todos. Como tal, decide entregá-los às comunidades das cidades onde compete.

 

«Há pessoas que me perguntam por que dou as prendas que os meus fãs me atiram. Eu desfruto das emoções que eles me dão. Fico feliz com isso em todas as competições, aprecio muito o que eles fazem por mim», disse.

 

Incógnita em PyeongChang

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A defesa do título olímpico na Coreia do Sul foi rodeada de incerteza. No início de novembro de 2017, Hanyu lesionou-se no ligamento lateral do tornozelo direito durante um treino e foi obrigado a abdicar dos campeonatos nacionais.

 

A qualificação para os Jogos Olímpicos nunca esteve em risco – era o líder do ranking e o campeão nacional em título – mas a dúvida sobre a condição física adensou-se cada vez mais, sobretudo depois de se perceber que a lesão era muito mais grave do que inicialmente se tinha pensado.

 

Hanyu esteve sem treinar até ao final de janeiro. E mesmo quando voltou continuava a depender fortemente de analgésicos para conseguir desempenhar os saltos que tinha pensado. Ao chegar à Coreia do Sul, porém, a motivação falou mais alto do que o resto.

 

O estatuto ficou demonstrado logo no aeroporto, quando surgiu acompanhado de vários guarda-costas. No meio de tanta euforia, adrenalina e emoções ao rubro, qualquer cuidado é pouco. Nem tanto pelo receio de uma reedição do que aconteceu com Nancy Kerrigan em 1994, mas pelo azar que pode acontecer no amontoado de fãs.

 

Obsessão pela perfeição

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O objetivo para PyeongChang não poderia ser outro que não a reedição do título olímpico. Apesar da lesão, continuava a ser, aos 23 anos, um grande candidato e principal favorito ao triunfo. Mas defender um título nunca é tão simples como pode parecer. Afinal, o último a consegui-lo na modalidade fora… Dick Button em 1952.

 

Yazuru Hanyu nunca deu nada por ganho e vinha com a lição estudada. Fazer igual ao que tinha feito em Sochi era receita para o fracasso: «Os erros que cometi no programa curto fizeram de mim um patinador mais forte e vou para esta prova determinado para me vingar de mim mesmo».

 

E foi o que fez. O homem que começou a patinar aos quatro anos, por seguir a irmã mais velha, Saya, para todo o lado, impressionou no programa curto e registou 111,68 pontos, a apenas 1,04 do recorde mundial que lhe pertence. Em Sochi, havia feito 101,45.

 

Mas faltava o programa livre. Aí, o estado físico de Hanyu ia falar mais alto. Conseguiria resistir ao esforço de sucessivos saltos durante quatro minutos e meio em cima do gelo, sobretudo depois de ter estado tempo parado? Sim, mas com um ou outro deslize e um esgar de cansaço indisfarçável.

 

«Mentalmente sou forte e poderoso. Posso não ser forte fisicamente – constipo-me com facilidade – mas consegui um bom desempenho graças ao apoio dos meus fãs e à minha vontade e desejo de cumprir as suas expetativas», disse, alimentando a ligação aos seus seguidores de forma digna de um profissional.

 

A emoção e a nova ambição

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A medalha de ouro deixou Hanyu sem palavras (plural): «A única que consigo encontrar neste momento para o que sinto é feliz». «Estou assoberbado com isto. Tive muita sorte em poder competir hoje, depois da lesão. É o melhor dia da minha carreira na patinagem. As minhas lágrimas vieram do coração», acrescentou.

 

O Japão chorou, e festejou, com ele. O primeiro-ministro Shinzo Abe correu para o Twitter para felicitar o feito histórico de Hanyu: «A tua magnífica atuação foi comovente. Obrigado por tocares os nossos corações».

 

Hanyu sentiu-se realizado. «Enquanto patinava, dei graças por ser um patinador artístico. Abracei este desporto e hoje em dia consigo resultados, por isso sou feliz. Esta é uma recompensa que me deram. Sacrifiquei muito por alcançar isto, é extraordinário», disse.

 

O futuro é incerto. Não pensa em competir para já enquanto o tornozelo não estiver em perfeitas condições e, quando estiver, mais do que qualquer vitória, está interessado em consolidar o seu estatuto de lenda, fazendo o que nunca ninguém fez, ou sequer tentou fazer, ao mais alto nível. «A minha única motivação agora é conseguir o quádruplo axel.»

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