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É Desporto

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18 de Março, 2021

Wayne Rainey. Uma curva fatal

Rui Pedro Silva

Wayne Rainey

Domingo, 5 de setembro de 1993. O campeonato do mundo de motociclismo (500 cc) está perto da decisão e o circuito de Misano recebe a antepenúltima corrida da temporada. As cartas estão todas do lado de Wayne Rainey e o título pode não ser mais do que uma formalidade.

O norte-americano é o tricampeão em título e lidera o Mundial com 214 pontos. O compatriota Kevin Schwantz é a maior ameaça e segue com 203. Em Misano, a Yamaha de Rainey segue na liderança da prova, seguida de perto pela Yamaha de Luca Cadalora, com a Suzuki de Kevin Schwantz um pouco mais atrás.

Wayne Rainey seguia a 160 quilómetros por hora mas viu a vida fugir-lhe por entre os dedos ao sair ligeiramente da trajetória numa curva para a direita. «A primeira análise demonstra uma paralisação das pernas que pode ser o resultado de um golpe simples, que é recuperável, ou, muito possivelmente, uma lesão real, que pode ser definitiva», explicou numa primeira instância o diretor médico da prova, Ángel Villamor.

Wayne Rainey foi transportado para o Hospital Bufalini em Cesena para fazer mais testes e o neurocirurgião Franco Servada afirmou que os sinais vitais estavam estáveis mas que o prognóstico era reservado. Quando o diagnóstico final chegou, o mundo do motociclismo ficou diferente para sempre: fratura e luxação da sexta vértebra lombar, com paralisação das pernas muito profunda e com escassíssimas possibilidades de recuperação.

Acidente de Rainey

Os maiores rivais de Rainey sentiram o peso de ver um adversário, mas sobretudo um colega, ficar de fora desta maneira. Kevin Schwantz, que estava a caminho do seu único título de campeão mundial graças ao azar de Rainey, admite que desejou que «não tivesse sido nada muito importante para poder continuar a lutar pelo título em Laguna Seca e Jarama». «O Wayne é um autêntico lutador e não o quero ver a atirar a toalha ao chão», continuou.

Luca Cadalora e Mick Doohan foram um pouco mais longe e alertaram para as condições da pista. «Naquela curva há um pouco de alcatrão levantado fora da trajetória. O Rainey chegou um pouco atrasado e passou por cima dele. Ao acelerar, a roda traseira perdeu aderência e depois também a da frente. Vi-o cair e por um momento pensei que me iria acontecer a mesma coisa. Evitei como pude a colisão mas não pensei que pudesse ter provocado tantos estragos», disse Cadalora.

«Não sei se a culpa do acidente se deve ao asfalto de Misano, mas é provável, porque é muito perigoso. Aceito os acidentes porque fazem parte das corridas, mas não por más condições dos circuitos», queixou-se o australiano, que viria a conquistar os títulos de 1994, 1995, 1996, 1997 e 1998. Misano só voltou a fazer parte do circuito em 2007 e no ano a seguir ao acidente, na temporada de 1994, já tinha sido substituído por Mugello.

Campeão de consciência limpa

Wayne Rainey

Wayne Rainey acordou para uma nova vida e concentrou-se em ver o lado positivo de tudo o que acontecera: «Caí quando era campeão do mundo, a liderar o mundial e a corrida em Misano. Não vos quero ver tristes, porque agora o mais importante é que consiga sair do hospital».

Meses mais tarde, numa entrevista à imprensa espanhola, confessou que o que lhe custou mais a aceitar foi a cadeira de rodas. «Quando estava na cama, estava na cama como em tantas outras vezes até então. Como quando aconteceu durante muito tempo depois do acidente na Malásia. Mas quando me vi pela primeira vez na cadeira de rodas foi muito duro», lamentou.

Depois, como sempre acontece com os grandes campeões, adaptou-se e estabeleceu novos objetivos: «Habituei-me a pensar em mim como uma pessoa cuja mobilidade se deve a esta cadeira. Estou a aprender a mexer-me melhor com ela, a calcular melhor as distâncias e estou a recuperar as forças para subir melhor. Vou construir no meu jardim um caminho asfaltado, para não lhe chamar um circuito, para poder fazer exercício à vontade».

«Na verdade, sinto-me um homem com muita sorte. No fundo, sou uma pessoa mais feliz agora do que antes do acidente. No meu interior, sinto uma paz e uma tranquilidade que nunca tinha tido antes. Embora também tenha dias maus e momentos mais em baixo», garantiu.

A ideia de ter dito adeus quando liderava a prova, o campeonato e como campeão foi algo a que se agarrou. «Fui falando com a minha mulher sobre o momento certo para deixar as corridas. Não queria abandonar, como fizeram muitos, como um derrotado. Eu estava no meu melhor momento quando caí. Ia em primeiro no Mundial, em primeiro na corrida, com o número 1 na minha Yamaha. Estou absolutamente convencido de que o quarto título consecutivo é meu, mas agora talvez tenha conquistado algo mais importante, apesar de o preço a pagar ter sido muito grande», disse.

Wayne Rainey aprendeu a viver sem pressa. A acordar com tempo, a não ter de passar os dias a treinar, a viajar pelo mundo, sem tempo para a família. Começou a olhar para vida de outra forma, ganhou tempo para brincar com o filho e não forçou o regresso ao motociclismo, que iria acabar por chegar, embora noutras funções.

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