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É Desporto

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22 de Abril, 2020

Vera Caslavska. Sedução mexicana com casamento à mistura

Especial Jogos Olímpicos (México-1968)

Rui Pedro Silva

Vera Caslavska

Ginasta checoslovaca já não tinha nada a provar mas a saída de cena de Larisa Latynina abriu espaço para que pudesse ser a maior sensação da ginástica artística. Caslavska conseguiu seduzir o público mexicano, conquistou um total de seis medalhas e… casou ainda na Cidade do México, perante cerca de dez mil pessoas.

Vera Caslavska já tinha sido a ginasta mais espetacular nos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 1964, mas teve de lidar com o facto de continuar a ser a sombra de Larisa Latynina, a soviética que atingiu o recorde total de 18 medalhas.

Quatro anos mais tarde, na Cidade do México, com a rival retirada, Caslavska não teve qualquer dificuldade ao repetir exibições de sonho e afirmar-se em definitivo como a melhor ginasta do mundo. Se em 1964 conquistara três títulos olímpicos e uma medalha de prata, em 1968 elevou a fasquia e saiu da edição mexicana com quatro medalhas de ouro e duas de prata. E o registo teria sido ainda melhor se… não houvesse uma pressão tão grande por parte da comitiva soviética.

Para não variar, os Jogos Olímpicos tiveram uma forte dinâmica política a interferir nos eventos. Os festejos de braço elevado e punho cerrado de Tommy Smith e John Carlos marcaram a edição e tornaram-se os mais memoráveis, mas a situação de tensão entre Checoslováquia e União Soviética teve muitas repercussões no outro lado do Atlântico.

Caslavska fez o possível. Foi obrigada a dividir a medalha de ouro com Larisa Petrik na prova de solo – depois de os juízes terem sentido pressão da comitiva soviética para melhorar a nota da ginasta – e foi suficientemente subtil na cerimónia protocolar para demonstrar o desagrado com a presença estrangeira em Praga, olhando para baixo e para o lado enquanto tocava o hino soviético.

O público tomou o lado de Caslavska. A ginasta seduziu os mexicanos dentro e fora do pavilhão. Com a sua graciosidade, confirmou tudo o que se esperava dela e até nas pequenas coisas fazia questão de agradar ao público, como quando escolheu uma música nacional para uma das suas rotinas.

Vera podia dar-se ao luxo disso… e muito mais. A sua supremacia no panorama mundial da ginástica era tão grande que conseguiu tornar-se a primeira – e única – atleta da história a revalidar o título olímpico do concurso completo num momento em que também era campeã mundial e campeã europeia.

Quando se despediu dos Jogos Olímpicos – naquela que foi a sua última edição -, com um total de sete títulos olímpicos e quatro medalhas de prata, Vera Caslavska aproveitou o carinho dos adeptos para casar ainda na Cidade do México. O noivo? O também atleta Josef Odlozil. A assistência? Cerca de dez mil pessoas que não quiseram deixar passar a oportunidade de marcar presença no matrimónio de uma das coqueluches do evento.

A carreira de Vera Caslavska terminou ali e o pior ainda estava para vir. De regresso à Checoslováquia, foi vítima das suas próprias ações. Os soviéticos controlavam o país e fizeram questão de demonstrar que tinham ficado desagradados com as brincadeiras da checoslovaca durante os Jogos Olímpicos. Obrigaram-na a ficar desempregada e controlaram os seus movimentos.

Só muito mais tarde, após a Revolução de Veludo, Vera Caslavska voltou a ser verdadeiramente livre. E reconhecida no próprio país.

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