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É Desporto

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03 de Julho, 2020

Usain Bolt. Como nascem as lendas?

Rui Pedro Silva

Usain Bolt

Jamaicano já era recordista dos 100 metros e até tinha passado pelos Jogos Olímpicos em 2004 mas continuava a passar pelos intervalos da chuva entre os adeptos sazonais do atletismo. A partir dos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, tudo mudou. Hoje, mais de uma década depois, não há ninguém que não conheça o melhor velocista da história.

Usain Bolt e Michael Phelps foram as duas estrelas mais brilhantes dos Jogos Olímpicos que a China mostrou em 2008. Numa organização em que se pensou tudo em grande, houve dois atletas que responderam ao chamamento e fizeram desta edição uma das mais memoráveis de sempre.

Os dois atletas têm pontos em comum. Tal como Phelps, Bolt também se estreou em Jogos Olímpicos como um adolescente desconhecido. Porém, se o norte-americano nadara com 15 anos em 2000, o jamaicano correra apenas em 2004, nos 200 metros, e sem sequer chegar à final.

O problema? As lesões. Os problemas físicos marcaram grande parte da evolução de Bolt até aos Jogos de Pequim. Com talento e potencial para se tornar um dos velocistas mais importantes de sempre, Bolt foi somando lesões, sobretudo nos momentos mais importantes, como o Mundial em 2005.

Quando chegou à China, em 2008, o currículo do jamaicano estava longe de ser impressionante. Tinha apenas duas medalhas em Mundiais, ambas em Osaka, ambas de prata, nos 200 metros e na estafeta dos 4x100. Por outro lado, já era o recordista mundial dos 100 metros, com uma marca de 9,72 segundos estabelecida poucos meses antes de Pequim.

Se até lá, Bolt tinha pouco para mostrar, sobretudo ao nível de pódios em grandes palcos, a partir dos Jogos de 2008 tudo mudou. Com uma capacidade impressionante para galgar metros atrás de metros – sobretudo por ser muito alto e com uma passada larga –, Bolt começou a ganhar a dar de avanço.

Pese o exagero, era isso que parecia. Havia sempre três pontos em comum nas suas corridas: os arranques eram lentos, as acelerações eram arrasadoras e os finais eram… em descompressão, tal era a vantagem sobre os rivais. Mesmo com este tri de características muito próprias, Usain Bolt bateu novamente o recorde do mundo dos 100 metros (9,69 segundos) e subiu ao lugar mais alto do pódio em três provas: 100, 200 e 4x100 metros.

Pequim foi a apresentação plena de Usain Bolt ao mundo. Os adeptos – e até os curiosos – deixaram de ver as provas de 100 metros para saber quem ganhava; preocupavam-se apenas em perceber se Bolt iria finalmente correr uma prova rápida do início ao fim e qual seria o derradeiro tempo de recorde mundial.

Em 2009, logo no ano seguinte, nos Mundiais de Berlim, Usain Bolt cumpriu a distância com uma marca de 9,58 segundos. O jamaicano tinha apenas 22 anos e a dúvida dos especialistas – e de toda a gente, na verdade – passou a ser se seria possível correr o hectómetro em menos de nove segundos e meio.

Talvez Bolt fosse capaz de fazê-lo. Mas nunca mais se aproximou dessa marca. Durante os anos seguintes, até terminar a carreira, demonstrou vezes e vezes sem conta, mesmo quando os adversários começaram a encurtar as distâncias, que a sua aura era imbatível.

Com uma personalidade contagiosa, uma boa disposição constante e resultados em pista, Usain Bolt tornou-se um favorito dos adeptos. Depois de novos tripletes de medalhas de ouro em 2012 e 2016, teria tudo para fazer história com nove medalhas de ouro no atletismo mas… viu o ouro da estafeta dos 4x100 de Pequim-2008 ser-lhe retirado depois de um dos seus compatriotas, Nesta Carter, ter acusado doping.

Nunca ninguém o conseguiu vencer em pista, num grande palco como os Jogos Olímpicos, desde a verdadeira estreia. Usain Bolt foi sempre mostrando quem era e o que valia e no final fica apenas uma derrota memorável: o dia em que uma falsa partida o impediu de conquistar a medalha de ouro nos 100 metros dos Mundiais de Daegu, em 2011. Não fosse isso e teria conseguido ser campeão mundial dos 100 e 200 metros entre 2009 e 2015.

Em 2017, no último adeus à velocidade, não passou do terceiro lugar dos 100 metros nos Mundiais de Londres. A passagem de testemunho foi, ainda assim, estranha: o novo campeão foi Justin Gatlin, o norte-americano com um passado de doping, campeão dos 100 metros em Atenas-2004 e habituado a estar na sombra constante de Bolt.

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