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É Desporto

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07 de Março, 2021

Rusty Kanokogi. Fingir ser homem para ganhar no judo

Rui Pedro Silva

Rusty Kanokogi

Nova Iorque, 1959. O torneio local de judo organizado pela YMCA está prestes a chegar ao fim e o vencedor da prova por equipas está decidido mas ainda falta um combate. Um dos judocas da equipa ganhadora tem um problema físico e o treinador pressente a oportunidade perfeita para lançar Rusty Kanokogi, então com 24 anos.

Está com o cabelo curto e as formas femininas estão tão bem disfarçadas quanto possível. O objetivo é competir sem dar muito nas vistas e, também por isso, o treinador pede-lhe para ser discreta, diz-lhe que um empate é suficiente. «Mas assim que consegui a primeira pega e percebi que conseguia tentar alguma coisa dali, não resisti e correu-me bem», recordou muitos anos depois.

A cerimónia de entrega das medalhas foi fatal. Um dos organizadores perguntou-lhe diretamente se era uma mulher e Rusty não mentiu. «Ainda bem que não o fiz. Se tivesse mentido, acho que o judo feminino não teria chegado aos Jogos Olimpicos. Aquele momento fez-me sentir que uma mulher não poderia ter de voltar a passar por aquilo», explicou.

Rusty Kanokogi nasceu Rena Glickman em 1935. Habituada a vaguear pelas ruas de Brooklyn, nomeadamente em Coney Island, Rena ganhou a alcunha de Rusty por culpa de um cão rafeiro e não demorou muito até fazer parte de um gangue só de raparigas. Eram as Apaches.

A violência era o caminho natural de Rusty. Em casa, a família não queria saber dela. O pai morreu quando estava no início da adolescência, o irmão alistou-se no exército e na marinha e a mãe passava os dias a trabalhar para garantir que nada faltava. Nas ruas, tinha de se impor para garantir respeito. Andava sempre com uma navalha para o caso de haver sarilhos e não virava a cara aos problemas. Tanto assim foi que, certo dia, depois de ter sido traída pelas colegas de gangue, perseguiu-as uma a uma até saldar as contas [Calma, não era a máfia, ninguém morreu, houve apenas algumas nódoas negras e talvez um bocado de sangue].

O judo apareceu como salvação. Já tinha casado e estava divorciada, rumava a uma vida sem rumo mas um dia um amigo mostrou-lhe um movimento que tinha aprendido com o desporto. Foi amor à primeira vista. Aparentemente sem esforço, Rusty tinha sido projetada para o chão sem qualquer reação. Havia ali algo de especial.

«Crescer em Coney Island fez com que vivesse constantemente com a sensação de ter de provar alguma coisa. O desporto controlado era a melhor forma. Há uma família no judo, há disciplina, tudo o que uma pessoa precisa para sobreviver», comentou em 2002.

Estávamos em 1955, quatro anos antes do célebre torneio de 1959. Não que houvesse concorrência por aí além, mas o judo tornou-se o domínio de Rusty. Os Estados Unidos tornaram-se demasiado pequenos e decidiu cruzar o Pacífico e ir para o Japão, para o instituto de judo Kodokan.

O espaço era emblemático. Existia desde 1926 e tinha uma longa tradição mas o sexismo abundava. As mulheres não podiam treinar com os homens, não tinham acesso ao pavilhão principal e não tinham as mesmas oportunidades de progressão. Só que Rusty não era uma mulher qualquer e mereceu o convite para, uma vez mais, estar entre homens. Uma enorme barreira tinha acabado de ser destruída.

Uma medalha que demorou 50 anos

Foi no Japão que conheceu o seu futuro marido, Ryohei Kanokogi, também ele judoca. Casaram-se em 1964, em Nova Iorque, numa altura em que qualquer progresso adicional de Rusty no mundo do judo parecia impossível. «Toda a gente me dizia que teria a medalha de ouro garantida se houvesse competição nos Jogos Olímpicos. E, sinceramente, não tenho como negar», lamenta, percebendo que estava muitos anos à frente de todas as outras mulheres na altura.

A ausência de competição não prejudicou o seu sonho para o futuro. Se ela não poderia competir, ia continuar a lutar para que quem viesse a seguir o pudesse fazer. Em 1965, organizou o primeiro torneio júnior em Nova Iorque, em 1976 tornou-se treinadora da equipa feminina dos Estados Unidos e em 1980 não hesitou em hipotecar a casa para ter o dinheiro suficiente para organizar os primeiros Mundiais femininos, num dos espaços do Madison Square Garden.

Faltava um objetivo: os Jogos Olímpicos. A pressão foi grande e garantiu que o judo feminino se tornasse uma modalidade experimental em 1984 mas o Comité Olímpico Internacional torceu o nariz à possibilidade de fazer daquilo algo definitivo.

Rusty não hesitou em ir com tudo. Ameaçou o Comité Olímpico Internacional com processos de discriminação e aproveitou para cavalgar a onda mediática para provocar o volte-face da decisão. Quatro anos depois, em Seul, na Coreia do Sul, o judo feminino ia tornar-se uma prova como todas as outras.

O trabalho de Rusty Kanokogi ainda não tinha terminado. Nunca terminou, na verdade. Em 1988, ajudou Margaret Castro a vencer uma medalha de bronze e em 1991, três anos depois, entrou no hall of fame da modalidade.

Até morrer, em 2009, nunca esqueceu o amor pelo judo e continuou a promover o desenvolvimento da modalidade, que lhe valeu a maior distinção do Japão que pode ser atribuída a um cidadão estrangeiro, e a lidar com crianças desfavorecidas no estado de Nova Iorque. Meses antes da morte, a justiça foi reposta, e a YMCA ofereceu-lhe uma medalha simbólica.

É esta a história da mãe do judo.

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