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É Desporto

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12 de Março, 2021

Richardson. A família que dominou o curling mundial

Rui Pedro Silva

 

Ernie, Arnold, Sam e Wes

Há uma explicação para tudo. Às vezes, visto de fora, pode haver inspirações difíceis de conceber, competições que não fazem sentido aos nossos olhos ou desportos que parecem roçar por pouco a linha que separa o aceitável do ridículo.

A tendência demonstra que somos mais propensos a recusar algo que está fora da nossa zona de conforto. Por isso, não é de espantar que nos países de temperaturas mais quentes, o curling surja sempre como um patinho-feio. Não é apenas por ser um desporto de inverno, é por ser o curling.

Talvez seja um dos desportos de inverno mais famosos. Mesmo que não tenham visto, todas as pessoas já devem ter ouvido falar, feito ou lido uma piada. Limpeza de casa, esfregar o chão, utilizar vassouras são apenas algumas das frases mais usadas quando se fala de curling. E, ainda assim, talvez da mesma forma que os canadianos olham para o hóquei em patins com tanto desdém, em comparação com o hóquei em gelo, os portugueses têm tendência a ver o curling como uma piada.

O contexto é muito importante. E é tudo para perceber como a família Richardson se tornou a maior potência do curling mundial no final da década de 60 e no início de 50. É tudo uma questão de inspiração.

Os quatro Richardson não eram propriamente jovens no início desta história, em 1955. Arnold era o mais velho e já tinha 26 anos, Wes tinha 24, Ernie 23 e Sam 21. Mas os tempos eram outros e todos marcaram presença no grande evento da cidade de Regina, na região de Saskatchewan: a final nacional de curling.

A cidade parou e a região acabou em festa. Era a segunda vez que organizava o torneio final mas, pela primeira vez, o título ficou em casa. Os vencedores foram os irmãos Campbell (Garnet, Don, Glen e Lloyd).

Aquela festa, aquela euforia e os quatro irmãos serviram como um momento eureka para os quatro Richardson. Os Richardson não eram todos irmãos mas vinham todos da mesma família: Ernie e Sam eram irmãos, sim, mas Arnold e Wes eram «apenas» primos. E, todos juntos, estavam a caminho de fazer história na modalidade.

Ernie Richardson é a figura nuclear desta história: começou a praticar em 1953 e assumiu-se como o capitão de uma equipa que se reforçou com Sam e Arnold logo em 1956, a seguir ao título dos Campbell, e de Wes em 1958.

Os resultados foram imediatos e 1959 foi um ano de sonho. Venceram o título regional e no Quebeque tornaram-se a equipa mais jovem de sempre a conquistar o campeonato nacional, numa prova em que surgiram como perfeitos desconhecidos. Mais tarde, Ernie assumiu que esta vitória foi a mais emocionante da sua carreira exatamente por isso: era tudo novo, não conheciam ninguém e foram avançando vencendo tudo o que havia para vencer.

O título mundial foi a cereja no topo do bolo em 1959. Contra a Escócia, num desafio que envolveu apenas os dois países mas que é hoje considerado como o primeiro Mundial da história, a família Richardson não teve contemplações e venceu todos os cinco jogos contra o representante escocês.

A supremacia «richardsoniana» manteve-se em 1960, novamente com domínio absoluto a nível regional, nacional e internacional (ainda só com a Escócia), mas em 1961 surgiu um momento para esquecer: a derrota contra a equipa de Alberta. A família demonstrou que foi apenas um grão de areia na engrenagem e voltou ao seu melhor em 1962.

Regresso à supremacia

Por esta altura, o Mundial já tinha quatro equipas, com a entrada dos Estados Unidos e da Suécia. O aumento da concorrência não afetou o domínio da equipa de Ernie Richardson: seis jogos, seis vitórias. O estilo de jogo dos Richardson aliava a contundência com a perícia, a inteligência com a sagacidade e não parecia dar qualquer hipótese à concorrência.

A competição em 1963, novamente com um domínio quase absoluto, com a exceção para uma derrota no Mundial com os Estados Unidos, teve um pequeno asterisco: Wes Richardson estava a enfrentar uma lesão nas costas e foi substituído por Mel Perry.

Foi com Mel Perry que a equipa fez história e se tornou a primeira e única até agora a vencer quatro títulos mundiais. Depois, como em tudo na vida, começou o período de decadência. Não voltaram a vencer o título canadiano, mas perderam a edição de 1964, terminando na segunda posição, atrás da equipa de British Columbia.

O período áureo já tinha passado e 1968, com a derrota na final regional, marcou o adeus à competição dos Richardson enquanto equipa. O domínio foi histórico e isso mesmo foi reconhecido quando se tornaram a primeira equipa de curling a entrar na Hall of Fame do desporto canadiano.

Depois, cada um à sua maneira, seguiram rumos diferentes. Ernie Richardson, considerado «O Rei», escreveu vários livros sobre a modalidade, foi uma personalidade decisiva na evolução do desporto e em 1978 foi distinguido com a Ordem do Canadá. Arnold desligou-se completamente da modalidade, mas Sam Richardson venceu a final regional na variante mista em 1973. Já Wes Richardson foi viver para o Havai e dedicou-se ao ciclismo e às maratonas. Estava farto do gelo.

A região de Saskatchewan nunca voltou a ser tão dominadora e tem apenas sete títulos na história: o de 1955, com os Richardson a assistir, os de 1959, 1960, 1962 e 1963, com os Richardson a competir, e depois os de 1973 e 1980. A edição deste ano está a decorrer e termina no próximo domingo, 14 de março.

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