Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

É Desporto

É Desporto

08 de Março, 2021

Rangers. O título do helicóptero

Rui Pedro Silva

Rangers em festa

A fação protestante de Glasgow está em festa depois de o Rangers ter reconquistado o título de campeão da Escócia depois de um hiato de nove temporadas que incluiu uma falência, a descida ao inferno e um regresso gradual à elite.

Os vinte pontos de vantagem sobre o Celtic não deixam dúvidas. Apesar de faltarem ainda seis jogos para o final da temporada, a equipa de Steven Gerrard conseguiu, provavelmente, o título mais saboroso do século. Não apenas por ter assinalado o primeiro depois de bater no fundo do poço, mas também por ter posto termo a uma série de nove títulos consecutivos da equipa verde e branca.

O fantasma do decacampeonato continua a assombrar os dois rivais da capital escocesa – foi a terceira vez na história que uma série terminou em nove. O Celtic foi o primeiro a passar por isso, entre as décadas de 60 e 70. A equipa associada ao treinador Jock Stein era imbatível na Escócia e até conseguiu conquistar a Taça dos Campeões Europeus em 1967. Mas em 1975 viu o Rangers quebrar a série de triunfos consecutivos.

A vingança chegou em 1998. Alcançar o decacampeonato era uma obsessão no Ibrox Stadium mas o Celtic desforrou-se do Rangers. E agora, em 2021, foi a vez de o Rangers voltar a devolver a gracinha.

O título foi saboroso. Por todas as razões e mais algumas. E apesar de nunca ninguém se queixar ao conseguir um campeonato demasiado cedo, não há dúvida de que não existe o mesmo dramatismo de um título conseguido ao soar da buzina quando ninguém – sobretudo quem manda – acredita que ainda é possível.

Foi o que aconteceu a 21 de maio de 2005. A história explica-se em poucas frases mas merece uma atenção mais cuidada. À partida para o derradeiro jogo, o Celtic liderava com dois pontos de vantagem sobre o Rangers e tinha vantagem no confronto direto. O primeiro classificado disputava o último jogo no terreno do Motherwell, enquanto o Rangers viajava até Edimburgo para defrontar o Hibernian.

As contas estavam contra o Rangers e o desenrolar dos dois encontros não chegou para mudar opiniões. Nacho Novo marcou o golo do Rangers, o único desse encontro, aos 59 minutos, mas a equipa não dependia apenas de si.

O Motherwell não estava a conseguir ajudar o Rangers. O Celtic chegou à vantagem aos 29 minutos por intermédio de Chris Sutton e o jogo, arbitrado pelo polémico Hugh Dallas (figura que teve uma noite para esquecer num Bayern-FC Porto em 2000), parecia encaminhar-se para o fim sem grande réplica da equipa visitada.

A tradição entrou em jogo e os responsáveis da liga escocesa tiveram de tomar uma decisão. Um helicóptero reservado para o efeito estava à espera desde o início da tarde para saber onde iria entregar o troféu. O objetivo era chegar tão cedo quanto possível e foi sem surpresa que começou viagem a caminho do Fir Park.

A dimensão do país e o contexto da última jornada ajudava à logística. Entre o Fir Park em Motherwell, não muito longe de Glasgow, e o Easter Road, em Edimburgo, há menos de 60 quilómetros. A viagem nunca seria longa, mas ninguém esperava uma inversão de sentido em cima da hora.

Scott McDonald foi o carrasco do Celtic

A culpa foi de Scott McDonald, avançado do Motherwell, que bisou com golos aos 88 e 90 minutos quando o barulho das hélices já se ouvia ao longe. Quando ninguém esperava, o título ia, afinal, para o Rangers. Os jogadores do Celtic limitaram-se a ver o troféu escapar por entre os dedos.

O herói dos adeptos do Rangers garante que nunca esquecerá esse dia. Mas não pelos motivos que se possa pensar. «Fiquei em choque depois do jogo. Achei que ia ser linchado. Lembro-me de ter ficado sentado em lágrimas», recordou o australiano, que cresceu como adepto do Celtic.

«Foi uma loucura. O meu avô estava num bar de adeptos do Celtic em Melbourne, no meio da madrugada, e teve de sair com proteção depois do jogo. O meu sogro esteve uma semana sem conseguir olhar para mim», contou.

Uma grande curiosidade é que, cerca de dois anos depois, McDonald cumpriu um sonho de infância e foi contratado pelo Celtic, já depois de uma proposta do Rangers ter sido recusada. Entre 2007 e 2010, McDonald teve oportunidade de marcar um golo a cada dois jogos (64 em 128), conquistando o campeonato na temporada de estreia.

Mas era impossível esquecer 2005. Naquela tarde, as palavras tinham desaparecido. «Ninguém conseguiu dizer nada no balneário», confessou Craig Beattie, que entrou pelo Celtic a quinze minutos do fim. «O Martin O’Neill esteve sentado no chão durante 20 ou 25 minutos e não disse uma única palavra. Estava toda a gente a olhar para o chão. É raro vermos um treinador sem palavras», acrescentou.

O ambiente no outro estádio foi o oposto. Vencedores e derrotados estavam em festa. Adeptos e jogadores do Rangers exultaram com as notícias que chegaram de Motherwell e festejaram um título que chegaram a dar como perdido, uma vez que os golos só surgiram já depois do apito final em Edimburgo. Apesar da derrota, o Hibernian também assinalou aquela tarde com carinho, uma vez que conseguiu garantir um lugar nas competições europeias, terminando na terceira posição a 31 pontos do Celtic e a 32 do Rangers.

A competitividade nunca foi uma grande palavra para descrever o futebol escocês, como se explica pelas três possibilidades de decampeonatos em menos de 50 anos, mas dificilmente terá havido um título mais disputado até ao último segundo do que este.

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.