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É Desporto

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15 de Maio, 2020

Ovett vs. Coe. A rivalidade que marcou Moscovo-1980

Rui Pedro Silva

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Corriam os dois pela mesma equipa, a Grã-Bretanha, mas a relação entre eles limitava-se ao essencial. A guerra de palavras e de ambições nos Jogos Olímpicos de Moscovo marcou a edição mas ninguém saiu da União Soviética com a sensação de missão cumprida. Ovett e Coe anularam-se mutuamente nas corridas dos 800 e 1500 metros, com cada um a vencer na especialidade do rival.

Os 800 metros eram de Sebastian Coe. Recordista mundial desde julho de 1979, o corredor britânico entrou em Moscovo com a ameaça de Ovett a pairar, mas com uma sensação natural de favoritismo para a prova das duas voltas à pista. Porém, aquele 26 de julho esteve longe de ser o que imaginava.

Depois de eliminatórias em que nunca estiveram frente a frente, o dia da final chegou com grande expectativa. Mas, como viria a dizer Coe, o grande favorito escolheu o pior dos dias para a pior corrida, estrategicamente falando, da sua vida.

A 300 metros do fim, Coe estava na cauda do pelotão e obrigado a fazer um enorme esforço para ultrapassar os outros concorrentes por fora. Lá na frente, o terceiro britânico, David Warren, partilhava a liderança com o soviético Nikolay Kirov mas viria a quebrar bastante e terminar na última posição.

Steve Ovett aproveitou da melhor maneira. Correndo com uma estratégia irrepreensível, saiu da confusão no momento perfeito para ultrapassar Kirov e fazer os últimos 100 metros com uma vantagem insuperável. Ao mesmo tempo, Coe minimizava estragos e, com grande desgaste, evitou uma desilusão ainda maior para terminar no segundo posto, a cinco décimas do novo campeão olímpico.

A rivalidade entre os dois, alimentada por uma imprensa britânica motivada pela antagonização das duas personalidades, aumentou. E Ovett, que tinha afirmado antes dos Jogos Olímpicos que tinha 90% de hipótese de vencer a corrida dos 1500 metros, decidiu aumentar a parada: a vitória seria insuficiente; não só iria vencer como bateria o recorde mundial por, pelo menos, quatro segundos.

Os 1500 metros estavam para Ovett como os 800 para Coe. Com 45 vitórias consecutivas na distância desde maio de 1977, o britânico tinha acabado de bater o recorde mundial, que pertencia a Coe, duas semanas antes da final dos Jogos Olímpicos.

Sebastian Coe batera o recorde do mundo em agosto de 1979 mas os 1500 metros estavam longe de ser a sua distância predileta. De facto, nos quatro anos anteriores, havia corrido a distâncias em apenas oito provas.

A 1 de agosto de 1980, apenas seis dias depois da surpresa dos 800 metros, Coe e Ovett voltaram a disputar uma medalha de ouro sem que se tenham encontrado durante as eliminatórias. A pressão estava toda do lado de Coe: «Os 1500 seriam sempre uma prova difícil, mas agora sinto que é a corrida mais importante da minha vida. Estou obrigado a ganhar».

Assim que foi dado o tiro de partida, percebeu-se que Coe não iria cometer os mesmos erros dos 800 metros. Não se deixou encurralar, não caiu em armadilhas desnecessárias e manteve-se sempre em boa posição. Seguiu na pegada do germânico Jurgen Straub e não teve qualquer dificuldade em manter – e até aumentar – o ritmo na liderança. Por seu turno, depois de tantas promessas, Ovett estava em quebra aparente e incapaz de responder, acabando por contentar-se com a medalha de bronze, depois de não ter feito mais do que correr lado a lado com o alemão de leste durante alguns metros na reta final.

Sebastian Coe era agora, acima de tudo, um homem aliviado. Tinha tirado a pressão de cima dos ombros e conquistado uma tão ansiada medalha de ouro. Durante os festejos fez também questão de mostrar o indicador esticado para a tribuna de imprensa, onde estavam grande parte dos jornalistas que lhe tinham feito a vida negra desde o fracasso dos 800 metros.

Quatro anos depois, Coe repetiu a façanha. Foi medalha de prata nos 800 metros, atrás do brasileiro Joaquim Cruz e com Steve Ovett a terminar na oitava e última posição, e tornou-se o primeiro atleta da história a vencer os 1500 metros em edições consecutivas. Na final, numa corrida que o grande rival não terminou, venceu com um tempo de 3:32.53, estabelecendo um novo recorde olímpico.

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