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É Desporto

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O outro Mundial do México

Mundial teve seis seleções

Não foi a primeira edição mas foi a mais memorável. Nem foi sequer o primeiro grande torneio disputado no México. Mas aquele Mundial (não-oficial) de 1971 ajudou a perceber que havia uma gigantesca margem de evolução no que dizia respeito ao futebol feminino.

 

A ideia não tinha nada de invenção. A empresa Martini & Rosso era a grande dinamizadora e, depois da primeira edição disputada em Itália em 1970, decidiu fazer uma segunda edição no outro lado do Atlântico. Houve mais patrocinadores a bordo e juntos construíram os passos de um sucesso estrondoso.

 

A crítica não deixa dúvidas: o torneio teve um sucesso estrondoso porque foi vendido como uma prova de futebol. Sim, eram mulheres, mas isso não passava de um pormenor. O jogo era o mesmo, apesar de ser disputado em duas partes de 35 minutos.

 

As balizas podiam ter postes com partes a rosa e os elementos da comissão organizadora tinham uma indumentária no mesmo tom, mas tudo isso não passava de adereços de uma enorme produção de marketing para vender o essencial: os jogos de futebol.

 

O comité não se preocupou em saber se a prova ia ser um fracasso do ponto de vista financeiro ou comercial. Tinha seis seleções presentes - México, Argentina, Inglaterra, Dinamarca, França e Itália – e jogos para organizar. Tudo o resto seria acessório.

 

A Martini & Rossi não olhou a despesas. O sucesso do México-1970 tinha lançado a semente para o México-1971. O contexto era diferente por isso a marca decidiu pagar as viagens, o alojamento e os equipamentos de todas as seleções presentes. Com tanto esforço, não espanta que a própria prova também seja conhecida por Martini Rossi Cup.

 

Mexicanos responderam em peso

 

Se a final da prova em 1970 tinha sido um sucesso, com 40 mil pessoas em Turim a verem a Dinamarca bater a Itália por 2-0, o jogo inaugural em 1971 superou desde logo as expectativas.

 

No Estádio Azteca, a 15 de agosto, 80 mil adeptos viram o México derrotar a Argentina por 3-1. As inglesas, na sua maioria a viverem os primeiros anos da adolescência, ficaram assoberbadas com aquela realidade.

 

«Era um mundo diferente. Parecia que tinha sido transportada para Nárnia», recordou Chris Lockwood. «Não sabíamos o que esperar. Só tínhamos feito um pequeno torneio de qualificação na Sicília em campos sem bancadas, era a isso que estávamos habituadas. De repente, fomos empurradas para o meio daquela euforia», acrescentou.

 

A imprensa britânica abraçou a ideia e não perdeu tempo até começar a comparar Leah Caleb, uma jogadora de apenas 13 anos, a George Best. Se dentro de campo as jogadores conseguiam fazer as delícias dos espetadores, fora dele eram acolhidas como se de heroínas se tratassem. «Não trocaríamos aquela experiência por nada», assumiu Caleb. «Tivemos a oportunidade de jogar no mesmo relvado que Pelé e o público mexicano acolheu-nos verdadeiramente», continuou.

 

Um caso Saltillo premonitório?

Comitiva mexicana em 1971

México e Dinamarca protagonizaram o emparelhamento perfeito para a final. De um lado, o anfitrião, impulsionado pelos espetadores e garantia essencial do sucesso da prova. Do outro, a campeã em título a dar os primeiros passos para uma sensação de hegemonia dos países nórdicos.

 

Mas, em vésperas do jogo, a seleção mexicana decidiu fazer render a força que tinha e pressionou a federação para que pudesse receber uma compensação financeira: dois milhões de pesos. Apercebendo-se do sucesso que a prova estava a ter e cansadas de estarem a jogar sem qualquer prémio, as jogadoras usaram a sua carta.

 

O comité organizador envolveu-se no braço-de-ferro e não cedeu. Não haver uma final seria um rude golpe no torneio mas alternativas não faltavam: arranjar outra equipa de jogadoras mexicanas, fazer uma seleção do resto do mundo com jogadoras das outras seleções presentes, organizar um espetáculo diferente ou, simplesmente, devolver o dinheiro dos bilhetes.

 

Não foi preciso tomar medidas. A seleção do México apercebeu-se que tinha adquirido uma responsabilidade especial na promoção do futebol feminino durante a prova e recuou nas exigências: «O aplauso do público vale mais do que dois milhões de pesos».

 

A final, porém, foi um desastre, apesar dos 110 mil adeptos nas bancadas do Azteca. As jogadoras mexicanas entraram numa espiral de erros infantis e acabaram derrotadas por 3-0, com uma dinamarquesa de 15 anos, Susanne Augustesen, a brilhar com um hat-trick.

 

Augustesen acabou por ter uma carreira brilhante, sobretudo em Itália, com mais de 600 golos em jogos oficiais. Mas ali, no México, não passava de uma adolescente que tinha precisado da autorização dos pais para poder viajar com a seleção.

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