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É Desporto

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03 de Maio, 2021

Najee Harris. O antigo sem-abrigo que idolatra Megan Rapinoe chegou à NFL

Rui Pedro Silva

Najee Harris

Era um dos segredos mais mal guardados do draft da NFL. Se Trevor Lawrence, o quarterback de Clemson, era visto como a única opção possível dos Jacksonville Jaguars na primeira escolha do evento, poucos eram aqueles que duvidavam que os Pittsburgh Steelers iam escolher Najee Harris na posição 24.

A opção merecia algumas críticas. Não é aconselhável escolher running backs na primeira ronda, apesar de os casos abundarem, porque é visto como uma posição em que a recompensa continua a ser possível nas rondas seguintes. Ouvindo um pouco dos muitos episódios de podcast sobre NFL que se produziram nas vésperas do draft, parecia haver um consenso: Najee Harris, de Alabama, era um excelente jogador, era quase certo que ia ser escolhido pelos Steelers mas… todos ressalvavam que, sobretudo nos últimos anos, é cada vez menos comum optar por essa posição tão cedo.

A equipa da Pensilvânia não ligou a isso. Os Steelers acham que Najee Harris é especial e foram recrutar uma peça importante para o ataque da equipa. Onde outrora houve Le’Veon Bell, vai passar a estar um jovem da Califórnia. Que é, de facto, especial, mas não apenas pelo que faz dentro de campo.

Najee Harris tem Megan Rapinoe, futebolista da seleção dos Estados Unidos, como exemplo e não se tem coibido de elogiar a atleta nos últimos meses. «Talvez não seja muito comum haver um homem a apontar uma mulher como modelo nos tempos que correm. Mas admiro-a muito mesmo por aquilo que faz fora do mundo do desporto», contou no final de 2020.

«Por tudo aquilo que faz, por tudo aquilo que representa. É uma feminista e faz-se ouvir em relação à forma como as mulheres são tratadas injustamente e como são pagas de forma diferente dos homens. Gosto que faça isso», acrescentou.

Najee Harris começou a imitar a celebração de Megan Rapinoe

Os dois atletas acabaram por estabelecer uma relação invulgar. Najee Harris replicou o famoso gesto de celebração de Rapinoe e Megan retribuiu com um tweet encorajador, pedindo-lhe que num jogo pudesse saltar por cima de um adversário. Algo que Najee Harris acabou mesmo por fazer.

«Ser uma mulher e dizer tudo o que tem dito… pode ser assustador para uma mulher dentro de um mundo que se diz ser dos homens», destacou uma vez mais. «Ela faz o seu papel, não liga aos detratores, mantém-se fiel ao que é, ao que acredita e ao que representa. É inspirador», salientou.

 

Uma vida à procura de uma recompensa

Najee Harris não é apenas especial por ter uma mulher como exemplo. Ou por ter sido escolhido como running back na primeira ronda do draft. Najee Harris é mais um caso de como uma pessoa consegue utilizar o desporto para dar um novo rumo à vida e superar os obstáculos do passado.

Na noite do draft, enquanto grande parte dos jogadores que esperavam ser recrutados na primeira ronda estavam em Cleveland, no lugar do evento, de fato e gravata e com a família e amigos à volta, Najee Harris recuou nos anos e foi celebrar com outra «família» que teve.

O jogador de 23 anos visitou as instalações para sem-abrigos do Greater Richmond Interfaith Program, na zona de San Francisco-Oakland, onde viveu com os pais e os quatro irmãos, interruptamente, entre oito a dez vezes diferentes, quando tinha 12 anos.

«Houve momentos em que precisei de uma ajuda. Deram-nos uma oportunidade para reencontrarmos o nosso rumo. Agora o meu trabalho é retribuir», disse aos jornalistas, durante o evento em que fez questão de levar comida para todos.

Najee Harris no local onde viveu várias vezes em 2010

Kathleen Sullivan, diretora-executiva do programa, não ficou imune ao gesto: «Vê-lo como um homem e com esta oportunidade pela frente dele e saber que viveu neste abrigo e em muitos outros locais com a sua família, a mudar de local em local, faz-nos perceber que tudo é possível».

A mãe de Najee Harris não conseguiu esconder a emoção de regressar a um local que tem uma simbologia muito forte no seu passado. «Foi muito forte para ela», disse Najee. «Esteve praticamente a chorar, de certa forma, porque temos muitas memórias daqui. Foi numa fase em que a minha vida estava a bater no fundo.»

Depois, tudo começou a encarrilar. A família conseguiu deixar o programa de vez e mudou-se para Antioch, a cerca de 70 quilómetros de San Francisco. Najee Harris frequentou o ensino secundário no liceu de Antioch, notabilizou-se no futebol americano com 94 touchdowns em 41 jogos e recebeu múltiplas ofertas de bolsa, acabando por escolher os Alabama Crimson Tide de Nick Saban.

O resto é história. E é uma história especial. Para continuar a seguir com atenção, agora na NFL.

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