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É Desporto

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09 de Fevereiro, 2022

Mikaela Shiffrin. O peso do mundo sobre os esquis

Rui Pedro Silva

Mikaela Shiffrin

Mikaela Shiffrin é um dos nomes mais conceituados entre a comitiva dos Estados Unidos e viajou para Pequim como uma das maiores candidatas à medalha de ouro nas provas de slalom gigante e de slalom nos Jogos Olímpicos de Inverno, provas que já conquistou no passado.

Leram este primeiro parágrafo? Mais do que transmitir uma informação, o objetivo foi fazer um exercício confirmado. Dependerá da velocidade e entoação de leitura de cada um, mas pelas nossas contas poderá demorar cerca de 16 segundos a ser lido. Vamos repetir?

Mikaela Shiffrin é um dos nomes mais conceituados entre a comitiva dos Estados Unidos e viajou para Pequim como uma das maiores candidatas à medalha de ouro nas provas de slalom gigante e de slalom nos Jogos Olímpicos de Inverno, provas que já conquistou no passado.

Agora paremos um pouco para pensar. Mikaela Shiffrin já competiu nestas duas provas mas só esteve em ação precisamente o tempo que se demora a ler este parágrafo. Foram 16 segundos, 11 numa manga e cinco noutra. Em ambas, cometeu um erro numa das primeiras portas e viu o sonho escapar por entre os dedos.

Na última madrugada, depois de mais um erro com o mundo inteiro a ver, Mikaela Shiffrin sentiu o mundo a desabar nos seus ombros. Encostou-se a uma margem da pista, sentou-se, inclinou-se sobre os joelhos e ficou ali, imóvel, a pensar no que tinha acabado de acontecer.

A razão maior é muito simples: os deslizes acontecem. E acontecem às grandes estrelas, às grandes figuras, aos maiores candidatos, mesmo quando nos tentamos convencer de que são imunes à pressão e não pertencem verdadeiramente a este mundo.

Mikaela Shiffrin tornou-se apenas mais um nome agitado pelas circunstâncias da vida. Com Naomi Osaka e Simone Biles, mesmo que por razões diferentes, já mostrou que os atletas têm falhas nos seus pilares e por vezes pode haver uma rajada que ponha tudo em jogo.

Os norte-americanos não estão habituados a isso. São uma enorme fábrica de talento numa realidade em que quem falha é rapidamente substituído por alguém mais novo, mais forte, mais dedicado e com vontade de chegar ao topo do mundo. Nesta realidade de fast-food desportivo, o bem-estar dos atletas é relegado para segundo plano, mas é impossível escapar a este fisco. Mais tarde ou mais cedo, a fatura aparece e é preciso pagar.

Mikaela Shiffrin tem dois títulos olímpicos, seis mundiais e um sem número de triunfos em provas da Taça do Mundo. Mais do que ganhar com frequência, demonstra também uma propensão para evitar o erro. Quando não ganha, é porque não foi a mais rápida, não é, como aconteceu em Pequim, por não conseguir terminar as suas mangas.

Se o primeiro erro foi recebido como um choque, o segundo ganhou dimensão de escândalo. Shiffrin demorou a assimilar e admitiu em conversa com os jornalistas que estava a começar a pôr tudo em causa. Perdeu a confiança, perdeu a segurança de quem vive sobre esquis há décadas, perdeu o bem-estar.

E também perdeu o pai, há dois anos. E é aqui que tudo ganha uma dimensão diferente. Por mais que gostemos de olhar para o desporto dessa forma, a realidade é mais do que um espetáculo criado para nos entreter. Dependerá sempre das personalidades, mas um verdadeiro campeão não se torna campeão para agradar a multidões. Tem um sonho, persegue-o, dedica horas infindáveis e acumula sacrifícios mas não o faz para atuar perante milhões.

É um ser humano que tem o seu trabalho transmitido para todos os cantos do mundo. A exigência aumenta e quando o espetador se senta para ver a prova, raramente pensa em coisas tão simples como: Será que o atleta passou bem a noite? Será que comeu algo estragado? Será que aquela dor da prova anterior está a deixar mossa? E a vida pessoal, como está? Nós, neste nós majestático, só nos importamos com o desempenho em campo. Se Shiffrin, ou outro qualquer atleta, é capaz de x, não aceitamos nada menos do que isso e até reservamos um desejo especial de podermos ser surpreendidos com algo mais.

É como se fosse um jogo de computador. Um Football Manager da vida real em que se um atleta tem 17 em capacidade para grandes eventos, será chocante se o desempenho for negativo. Por outras palavras, estamos cada vez mais escravos de um algoritmo.

Mikaela Shiffrin acumulou erros porque não está bem. Pode simplesmente ter alcançado o ocaso da carreira, pode não se ter adaptado a Pequim, pode ter ido abaixo mentalmente depois de um primeiro erro invulgar. Pode ter acontecido imensa coisa. Seja quais forem as razões, Shiffrin sentiu a pressão do mundo sobre os esquis e agora terá de se resolver.

A solução passará por encontrar o que é melhor para ela. O ruído exterior tem de ser abafado, não só por ela mas também por quem defende os seus interesses. Numa era em que qualquer um de nós consegue encontrar um canal direto de comunicação com as grandes estrelas, torna-se cada vez mais essencial respeitar e perceber as dinâmicas para que todo este sistema não se torne perverso.

Foi não só por isto mas também que se perdeu Simone Biles. Foi não só por isto mas também que se perdeu Naomi Osaka. É não só por isto mas também que precisamos de ter um cuidado redobrado na forma como as estrelas são tratadas. As grandes parangonas de choque, escândalo, desilusão vendem no dia mas são substituídas rapidamente por editores ávidos pela nova atualidade sumarenta. Para os atletas, as marcas não saram tão rápido. Mesmo que sarem, a cicatriz ficará para sempre.

O mundo do desporto mudou. Os atletas são cada vez mais escrutinados e sujeitos a pressões que podem rapidamente atingir proporções insanáveis. Do lado de cá, temos a obrigação de perceber isso e agir de acordo. Não podemos ser negacionistas das alterações da dinâmica desportiva. Um dia poderá ser demasiado tarde.

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