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É Desporto

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27 de Julho, 2021

Masomah Ali Zada. A afegã que era apedrejada sempre que pedalava

Rui Pedro Silva

Masomah Ali Zada

Já pararam para pensar, hoje, no privilégio que têm? Vamos esperar um momento antes de entrar num mundo ainda mais difícil de compreender, um mundo que fez Masomah Ali Zada sentir que não era digna sequer de algo tão simples como andar de bicicleta.

A história de uma das atletas, que compete com estatuto de refugiada, com estreia prevista esta madrugada na prova de contrarrelógio feminino começa com um pedaço de iô-iô simbólico. Nasceu no Afeganistão em 1996, no ano em que os pais fugiram para o Irão devido à instabilidade política do seu país-natal. Durante os primeiros anos de vida, aprendeu a andar de bicicleta, interessou-se pelo mundo, sentiu que podia ter um propósito maior. Depois, com o regresso ao Afeganistão, tudo mudou.

«Não podia andar de bicicleta como no Irão. Era proibido. Nunca vi uma rapariga a andar de bicicleta, muito menos com roupa desportiva. Naquela altura, não havia muitas raparigas que andassem de bicicleta e as pessoas eram violentas quando nos viam», recordou Masomah referindo-se também à irmã Zahra.

«As pessoas achavam que andarmos de bicicleta era contra a nossa cultura, contra a nossa religião, mas isso não é verdade. Sentiam apenas a estranheza de ver uma mulher em cima da bicicleta pela primeira vez», continuou. Mas não era apenas estranheza que sentiam. As irmãs eram insultadas e apedrejadas, às vezes havia até quem lhes atirasse fruta podre.

O ambiente era tudo menos propício para o desporto mas em 2016, com 20 anos, tudo começou a mudar quando participaram numa prova em França e foram alvo de um documentário intitulado As Pequenas Princesas de Kabul. Um advogado interessou-se pelas suas histórias e ofereceu-lhes ajuda para garantir asilo em França.

A mudança deu-se em 2017. Masomah e a irmã Zahra mudaram-se para Lille com os pais e puderam começar a andar de bicicleta à vontade. «Nunca desisti do ciclismo», garante a atleta olímpica. «Pelo contrário, quero encorajar as raparigas a andar de bicicleta e quero normalizar o ciclismo feminino no Afeganistão», acrescentou.

«Numa bicicleta tens a sensação de liberdade. Ninguém te diz que tens de fazer isto ou aquilo só por seres uma mulher. Nunca encontrei outro desporto tão adequado para mim», garantiu.

Masomah Ali Zada vai competir esta madrugada e destacar-se-á de todas as outras atletas, uma vez que decidiu pedalar sempre de véu. «As pessoas costumam fazer comentários sobre isso, perguntam-me se não fica demasiado calor. Sinto que nunca devemos deixar de educar as pessoas. Vivo sozinha em Lille agora e o meu pai sempre me disse que seria eu a decidir se deveria usar ou não o véu, e isso é algo que as pessoas têm dificuldade em perceber», lamenta.

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