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É Desporto

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05 de Março, 2021

Marita Koch. Uma corrida irrepetível

Rui Pedro Silva

Marita Koch

Há encruzilhadas capazes de decidir o destino de uma pessoa num piscar de olhos. Uma escolha feita hoje pode alterar de forma significativa tudo o que se lhe sucede e a dimensão do que acontece depois será tão maior quão mais influente é a pessoa.

Marita Koch era apenas mais uma jovem quando, em 1975, com apenas 18 anos, teve de tomar uma decisão que alterou o panorama do atletismo mundial. A alemã oriental gostava de correr mas queria estudar. Tinha tido uma oferta para ir para Berlim prosseguir os estudos de medicina, mas a hipótese de continuar a correr pairava no ar, com a preparação para os Europeus juniores de atletismo na Grécia ao virar da esquina.

«Atenas estava a chamar e não consegui resistir à oportunidade de viajar e participar num evento internacional. Sempre disse, a brincar, que se a prova tivesse sido na Polónia, provavelmente nunca teria decidido ir para Rostock para o centro de treinos», contou Marita, em entrevista ao diário espanhol El País em outubro de 2010.

Correr é, por definição, uma viagem. E Marita Koch estava habituada a fazer viagens mais curtas, de 100, 200 e 400 metros, mas foi o resto do mundo que a seduziu. Por isso, não é de espantar que o momento mais marcante da sua carreira tenha sido no outro lado do mundo, em Camberra, na Austrália, em outubro de 1985.

O palmarés de Marita Koch provoca inveja. Foi campeã olímpica dos 400 metros nos Jogos de Moscovo em 1980, venceu três medalhas de ouro nos Mundiais de Helsínquia, em 1983, e conquistou o título dos 400 metros nos Europeus de 1978, em Praga, nos de 1982, em Atenas, e nos de 1986, em Estugarda - três edições consecutivas com a germânica a ser a mais rápida da Europa a dar a volta à pista.

Mas não houve nenhuma volta à pista tão rápida como a que deu em Camberra, no Hemisfério Sul, onde a água rodopia sobre si própria no sentido inverso. Talvez tenha sido isso que proporcionou a Marita Koch a corrida mais rápida de sempre de uma mulher nos 400 metros. Foi em 1985 mas o recorde mundial mantém-se até hoje: 47,60 segundos.

A marca superou a da checoslovaca Jarmila Kratochilova, que detém o recorde mais antigo do atletismo mundial (1:53:28 nos 800 metros a 26 de julho de 1983), e não deixou dúvidas sobre o talento da alemã que já tinha 28 anos e começava a ver o fim do seu apogeu no horizonte, muito por culpa dos constantes problemas no tendão de Aquiles.

Preparação premonitória

«Viajei com expectativas altas para a Taça do Mundo e, com aquela idade, sabia que seria provavelmente a minha última oportunidade para correr abaixo dos 48 segundos», confessou, garantindo que a preparação para a prova foi perfeita. «Foi no final da temporada e tinha tido cinco semanas para pensar na corrida. Os meus treinos indicavam que iria conseguir um grande tempo», disse ao jornal espanhol.

A prova de Marita é impressionante. Sai da pista 2 e aos 200 metros já está isolada no primeiro lugar, com uma curva ainda para fazer. «Hesitei sobre que marca poderia alcançar mas aos 360 metros ainda me sentia com força. Nos últimos metros, a única coisa que consegui pensar foi que não queria falhar a casa dos 47 segundos por pouco. Quando cruzei a meta e ouvi a ovação do público, percebi que tinha conseguido algo bom».

A paixão pelas viagens deu-lhe uma motivação especial. Depois de falhar os Jogos Olímpicos em Los Angeles, por culpa do boicote oriental, decidiu que 1985 seria um ano para reivindicar o seu estatuto. E a Taça do Mundo foi a oportunidade perfeita. «Uma das coisas que mais me motivou foi o facto de ter sido na Austrália. De outra forma, um cidadão da República Democrática da Alemanha nunca poderia ter visitado a Austrália. Queria muito ter terminado os meus estudos, mas a oportunidade de viajar sempre foi uma das minhas maiores motivações para me tornar uma atleta», admitiu.

Marita Koch garante que correu sempre por si mesma e nunca se sentiu uma embaixadora do seu país. Por outro lado, é impossível dissociar a sua carreira da RDA e de uma organização que utilizou o doping sistemático durante anos para tentar alcançar a supremacia desportiva. Os controlos realizados a Marita Koch tiveram sempre resultado negativo mas a suspeição ganhou ainda mais forma quando, após a queda do Muro, foram divulgados documentos que incluíam a corredora na lista de atletas que recebiam um esteróide anabolizante chamado turinabol entre 1981 e 1984.

Os desmentidos de Marita Koch e a evidência dos resultados a que foi submetida nunca foram suficientes. Hoje, tantos anos depois, a sua carreira e, sobretudo, a marca alcançada em 1985, são tão inalcançáveis como discutíveis. Sobretudo porque nunca depois dela uma atleta ameaçou sequer aproximar-se da casa dos 47 segundos. O recorde olímpico pertence a Marie-José Perec (48,25 segundos em 1996) e no Rio de Janeiro, em 2016, a bahamiana Shaunae Miller mergulhou para a vitória com um tempo de 49,44.

É possível que o recorde de Marita Koch nunca venha a ser batido. E é provável que os críticos nunca deixem de colocar um asterisco ao lado da sua marca. Mas, seja como for, a atleta tem uma visão diferente para dar ao debate. «Sinto que o meu recorde pode ser batido mas muito poucas terão potencial para tal. É preciso ter as qualidades de uma velocista. É preciso fazer bons tempos intermédios nos 100 e nos 200 metros. Os avanços tecnológicos não mudaram muito nesta disciplina. Talvez a mudança da superfície possa ajudar, mas os ténis não mudaram muito. No final de contas, o atleta só tem de se manter saudável e ser bem apoiado, isso será sempre igual.»

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