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É Desporto

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15 de Março, 2021

López Nieto. O árbitro que alterou o grupo do FC Porto

Rui Pedro Silva

López Nieto

Antonio López Nieto foi um árbitro espanhol e, como tantos outros na Península Ibérica, nunca foi bem visto por jogadores, treinadores, dirigentes e adeptos. O Barcelona de Cruijff queixou-se mais do que uma vez das suas decisões, mas faz parte do trabalho e o malaguenho nunca se deixou afetar muito.

O currículo de López Nieto é invejável. Arbitrou o Rep. Checa-Itália e o França-Holanda no Euro-1996, e o Camarões-Alemanha do Mundial-2002, num encontro em que estabeleceu um novo recorde ao mostrar 14 cartões amarelos e dois vermelhos. Nas competições de clubes da UEFA, esteve em três finais europeias, sempre na Taça UEFA: o Galatasaray-Arsenal de 2000, o Lazio-Inter de 1998 e a primeira mão do Parma-Juventus de 1995.

Durante os dez anos em que foi árbitro com as insígnias da FIFA, entre 1993 e 2003, López Nieto também ficou associado a dois jogos de equipas portuguesas: arbitrou o Boavista na Liga dos Campeões contra o Manchester United (2001/02) e o Sporting-Casino Salzburgo na Taça UEFA em 1993/1994.

Os grandes momentos e os grandes jogos sucederam-se ao longo da sua carreira mas nenhuma história ganhou tanto peso e é tão sinónimo de López Nieto como a polémica de 1995, associada a um jogo da fase de grupos da Liga dos Campeões entre o Dínamo Kiev e o Panathinaikos.

Vamos por partes. O Dínamo Kiev tinha atingido a fase de grupos depois de derrotar os dinamarqueses do Aalborg na pré-eliminatória. O árbitro checo Jiri Ulrich assinalou uma grande penalidade aos 81 minutos no jogo da primeira mão e Yevhen Pokhlebayev não vacilou. Na segunda mão, os dinamarqueses não conseguiram fazer a diferença a jogar em casa e quando Peter Rasmussen marcou aos 87 minutos, já o Dínamo Kiev tinha festejado três vezes: uma por Yuriy Kalitvintsev e duas por Andriy Shevchenko.

A equipa ucraniana avançou para a fase de grupos e ficou inserida no grupo A, com Panathinaikos, Nantes e FC Porto. Na primeira jornada, a 13 de setembro, os dragões empataram em França sem golos e o Dínamo Kiev recebeu e venceu o Panathinaikos por 1-0, num jogo arbitrado por, lá está, López Nieto.

Fim de história? Nem por isso. Aliás, isto foi apenas o começo. A história começou na véspera do jogo, quando López Nieto e a sua equipa de arbitragem aterrou em Kiev. Os espanhóis foram recebidos por dois dirigentes do Dínamo, como era comum naquela altura, e seguiram diretamente para uma loja com artigos tipicamente ucranianos. Depois seguiram para um armazém com casacos de pele e… estalou a polémica. O árbitro diz que a ida não foi solicitada e que os dirigentes lhe perguntaram se a mãe ainda estava viva, o clube diz que foi López Nieto a requisitar a compra, porque os casacos de pele eram mais baratos na Ucrânia do que em Espanha.

Horas mais tarde, no hotel, tocaram à porta do quarto de López Nieto e apareceram dois casacos de pele. Os dois assistentes e o quarto árbitro, situados em andares diferentes, também receberam um cada.

A oferta foi vista com estranheza e López Nieto decidiu esclarecer a situação. Os dois dirigentes, Igor Babichuck e Igor Sourkis, não reconheceram o que se tinha passado e levaram a equipa de arbitragem para a alegada sede, numa caserna no meio dos bosques, sem troféus nem o tipo de artigos que normalmente se associam a uma sede de um clube. Os diálogos estranhos reapareceram: depois da oferta de uma sauna, que López Nieto entendeu como uma oferta de cariz sexual, Babichuk, o vice-presidente do clube, passou um papel para as mãos do espanhol que tinha uma oferta de 30 mil dólares em caso de vitória do Dínamo no dia seguinte.

López Nieto deixou de ter dúvidas e, no regresso ao hotel, denunciou a oferta ao delegado na UEFA. Depois de falarem com o secretário-geral da UEFA, Gerd Aigner, López Nieto decidiu que estava em condições para arbitrar o jogo, já depois de devolver as ofertas aos responsáveis do Dínamo Kiev. Dentro de campo, a equipa ucraniana, com Shevchenko e Rebrov no onze, venceu por 1-0 mas o caso ainda ia correr muita tinta.

Dínamo-Panathinaikos

A Comissão de Controlo e Disciplina da UEFA reuniu-se na cidade do Porto uma semana depois e decidiu suspender o Dínamo Kiev de todas as competições europeias por dois anos e banir os dois dirigentes de qualquer cargo relacionado com futebol.

O Dínamo Kiev recorreu, acusou o árbitro de mentir e de se ter recusado a pagar o preço dos casacos de pele, mas não teve sucesso. O presidente da UEFA, Lennart Johansson, afirmou que o caso era «uma tragédia para o futebol» e considerou o castigo exemplar para dissuadir qualquer situação semelhante no futuro.

O Aalborg, como boa equipa dinamarquesa, beneficiou da sanção de outros e foi convidado a integrar o grupo do FC Porto. Apenas duas semanas depois do escândalo, estreou-se na fase de grupos ao perder nas Antas por 2-0, por culpa de um bis de Rui Barros. O Panathinaikos não saiu diretamente beneficiado da situação uma vez que voltou a perder o jogo da primeira jornada, na Dinamarca, por 2-1. Curiosamente, foi mesmo a única derrota dos gregos na fase de grupos.

O Panathinaikos apurou-se na primeira posição, com onze pontos, enquanto o Nantes seguiu no segundo lugar com nove. O FC Porto foi terceiro com sete e o Aalborg conseguiu a proeza de ser eliminado da mesma competição duas vezes no mesmo ano. Além da vitória na receção ao Panathinaikos só voltou a somar pontos na receção aos dragões. Emerson bisou para a equipa de Bobby Robson e garantiu um empate a dois golos.

O Dínamo Kiev nunca se conformou, queixou-se de a UEFA só ter querido acreditar na versão do árbitro, mas acabou por ver a sanção amenizada. Um ano depois, regressaram às competições europeias. Foram eliminados pelo Rapid Viena na pré-eliminatória da Liga dos Campeões com duas derrotas (2-0 na Áustria e 4-2 em Kiev) e não tiveram melhor sorte na Taça UEFA: eliminados pelos suíços do Neuchâtel Xamax (0-0 em casa, 1-2 fora) logo na primeira ronda.

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