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É Desporto

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14 de Agosto, 2021

Krystsina Tsimanouskaya. A maior dose política de Tóquio

Rui Pedro Silva

Krystsina Tsimanouskaya

Pierre de Coubertin queria uns Jogos Olímpicos que ajudassem a descobrir quem era mais rápido, quem saltava mais alto, quem era mais forte. Nunca pensou – e até descartou a ideia – que o maior evento desportivo do mundo moderno (de todos os mundos, na verdade), pudesse vir a ter uma componente política tão afirmada.

Mas teve. E teve praticamente desde o início. Desde logo com a organização. Ser o anfitrião de uma edição de Jogos Olímpicos traz uma responsabilidade acrescida e a pressão de fazer boa figura leva a um aumento de investimento, que é associado ao aumento da cultura desportiva, que é associado ao aumento de novos talentos, que é associado ao aumento de medalhas no curto-médio prazo. Havendo dinheiro, o passado tem-nos mostrado que talvez ignorando o fracasso do Canadá para fabricar campeões olímpicos em Montreal-1976, existe um estímulo muito grande que começa ainda nas edições anteriores e se prolonga pelas posteriores… dependendo da seriedade de aposta.

Recentremos o assunto: os Jogos sempre foram políticos. Podem é ter o seu lado político mais ou menos mediático. Munique-1972, os Jogos de Hitler, os boicotes dos anos 80 e o pódio de punhos cerrados e erguidos estão no top. Mas há mais, muito mais. Há sempre, aliás. Podem é não ter tanto impacto.

Houve política quando os países dos Bloco Oriental tentaram fazer do desporto olímpico a sua validação ideológica. Houve política quando as duas Alemanhas decidiram competir em conjunto nas edições de 1956, 1960 e 1964, a última delas já depois da construção do Muro de Berlim. Houve política quando a Coreia do Norte decidiu não participar na edição de Seul, em 1988, e novamente na de Tóquio, em 2020 (ou 2021, vá). Da mesma forma que a equipa de hóquei em gelo nos Jogos de Inverno em 2018 tiveram uma equipa unificada das Coreias.

Há cinco anos também tivemos política. A criação de uma equipas de refugiados não foi inocente, mas a componente política não terminou aí. Houve política sempre que o halterofilista do Kiribati, David Katoatau, dançava depois das suas tentativas de levantamento para alertar para os perigosos das alterações climáticas. E, claro, houve política na maratona, quando Feyisa Lilesa cruzou a meta de punhos cruzados, alertando para a perseguição que o seu povo, oromo, era vítima na Etiópia.

Este texto podia ser virtualmente interminável. Houve política quando a Arábia Saudita foi «convidada» a apresentar uma mulher como participante em 2012. E não foi caso único. Mas vamos concentrar-nos na edição que agora terminou no Japão. Adivinhem lá: sim, houve política.

Houve política na cerimónia de pódio com a medalha de prata do lançamento do peso feminino, Raven Saunders, que cruzou os punhos para marcar o local onde os oprimidos de todo o mundo se encontram. E… houve política com Krystsina Tsimanouskaya.

Quem? Exato. É uma atleta bielorrussa que caiu no caldeirão da fama nos primeiros dias de agosto, já depois de ter falhado o apuramento nas eliminatórias dos 100 metros. Krystsina era uma atleta desconhecida. Nasceu em novembro de 1996, faz atletismo desde os 14 anos e sempre gostou de correr contra rapazes.

As coisas correram-lhe bem nas ruas de Mogilev. E depois nos campeonatos regionais. E até nos nacionais. Mas a competição internacional nunca foi amigável para ela: nunca alcançou sequer a final de uma grande competição. Nada contra, atenção, não é disso que faz dela uma atleta mais ou menos respeitada.

Pelo menos pela comunidade internacional. A nível interno, e na própria comitiva em Tóquio, a história pode ser diferente e tem demasiados laços demasiado húmidos e apertados para desatar para já. Na melhor cronologia possível, a atleta fez um vídeo a queixar-se de que tinha sido inscrita na estafeta dos 4x400 metros, uma distância que nunca tinha corrido sem a sua autorização.

E é aqui que entram versões díspares. A atleta terá sido transportada pela própria comitiva para o aeroporto para regressar a Minsk mais cedo como resposta ao seu vídeo, mas ao Comité Olímpico Internacional e à organização dos Jogos de Tóquio disse que estava no aeroporto, sim, mas que se sentia segura.

Problema? Já tinha gravado um vídeo a pedir ajuda depois de ter sido pressionada a regressar à Bielorrússia onde, dizia-lhe a avó, poderia não ser seguro nem para ela nem para a sua família. O Comité Olímpico Bielorrusso também entrou em ação e além de voltar atrás na inscrição na estafeta, retirou a atleta dos 200 metros, alegando que não estava no estado emocional e psicológico mais indicado.

No dia seguinte, 2 de agosto, a atleta pediu asilo na Polónia, que foi concedido, e aterrou na Europa Central a 4 de agosto seduzida pela possibilidade de continuar a competir. A iniciativa gerou um novo incidente europeu com a Bielorrússia, neste caso específico com a Polónia, e veio aumentar a tensão que vive na Europa.

Sim, Krystsina pode não ser a atleta mais mediática mas veio remexer num caixote que tem cheirado muito mal na política europeia e nas relações entre a Europa Ocidental e a Rússia nos últimos meses. Uma vez mais, a política atravessou-se no desporto olímpico. Ou o desporto olímpico teve mais uma dose de política a entrecruzar-se com as suas medalhas. Com que consequências? Isso só se perceberá verdadeiramente depois de uma estafeta de muito mais do que quatro por 100 metros.

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