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É Desporto

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26 de Julho, 2021

Kimia Alizadeh. A histórica refugiada que arranhou o bronze

Rui Pedro Silva

Kimia Alizadeh

Foi por pouco, muito pouco. Kimia Alizadeh perdeu o combate de atribuição da medalha de bronze para a turca Hatice Kubra Ilgun na categoria de -57 quilos do taekwondo e «desperdiçou» a oportunidade de escrever mais uma história inapagável do desporto mundial.

Kimia não é novata nas lides olímpicas. No Rio de Janeiro, em 2016, a competir pelo Irão, alcançou a medalha de bronze precisamente nesta prova e tornou-se a primeira mulher iraniana de sempre a chegar ao pódio em Jogos Olímpicos. Num país com 70 medalhas (22 de ouro), só Kimia Alizadeh conseguiu quebrar essa barreira.

O momento poderia ter servido para dar uma lufada de ar fresco no desporto do Irão mas acabou por acontecer precisamente o oposto. «O taekwondo mudou a minha vida. Quando conquistei a medalha, fui a primeira de sempre no Irão e, a partir daí, as pessoas sabiam quem eu era… tornou-se difícil».

Kimia Alizadeh tinha 18 anos quando foi bronze no Rio de Janeiro e estava longe de adivinhar o que lhe ia acontecer. Ser crítica do regime aliado ao facto de se ter tornado famosa e perfeitamente reconhecível na rua tornou a situação insustentável e em janeiro de 2020 decidiu abandonar o Irão.

Na altura, numa publicação nas redes sociais, apontou as limitações que as mulheres têm no Irão. «Sou uma entre milhões de mulheres iranianas oprimidas com quem os poderosos têm andado a brincar há anos. Levavam-me onde queriam, tinha de vestir o que me mandavam. Ordenavam-me o que tinha de dizer, e eu repetia. Sempre que achavam necessário, exploravam-me», lamentou, negando-se a continuar a compactuar com um regime de hipocrisia, mentiras e injustiças.

Quando chegou à Alemanha, tudo mudou. «Agora está tudo bem. O mais importante é que já consegui aliar a minha vida pessoal à vida desportiva», disse, mostrando-se aliviada.

Em Tóquio, Kimia Alizadeh esteve a uma vitória de voltar a fazer história. Alcançou o melhor resultado de uma atleta a competir com o estatuto de refugiada e foi por pouco que não garantiu a primeira medalha: uma derrota por 6-8 foi fatal, mas na memória ficará para sempre a coragem de não ser cúmplice e de estar nos livros do desporto e do Irão. Para o bem e para o mal.

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