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É Desporto

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Keizerball. A desconfiança é inimiga da estratégia

Marcel Keizer

Escreveu o Luís Cristóvão no Twitter, pouco depois de o Sporting perder no terreno do Tondela: «Lá longe, no país dos resultadistas, ouve-se o indisfarçável som do afiar de facas. Enquanto isso, no país da posse, choram-se rios de lágrimas por uns últimos minutos de procura de solução pelo ar. Nem mais, voltamos a viver uma noite de corações partidos».

 

O comentário é pertinente e reflete na perfeição as duas ideias-chave que saíram de Tondela na noite de segunda-feira. Por um lado, os que têm feito a cama ao futebol atrativo de Keizer, clamando por dificuldades e incapacidade de ler o futebol português, ganharam espaço para exaltar que sempre tiveram razão e que um estrangeiro não pode chegar cá e limitar-se simplesmente a impor um estilo positivo, com uma ideia baseada na posse, dinâmica e procura constante pelo golo. Por outro, quem o tem defendido destes ataques não pode ter deixado de sentir alguma desilusão ao ver que equipa e treinador fugiram à identidade que têm tentado construir quando André Pinto entrou para o lugar de Nani e os leões começaram a bombear bolas para a área.

 

O que fazemos dentro de campo depende muito da nossa confiança. Não é surpresa para ninguém que as ações de alguém confiante têm uma percentagem de sucesso muito maior. Seja na receção, no passe, no remate ou mesmo na dinâmica coletiva e na tomada de decisão, é muito mais confortável arriscar quando a confiança é máxima.

 

Há três momentos-chave capazes de colocar a confiança em risco: uma série de maus resultados, a reação a um golo sofrido e uma posição de desvantagem com o jogo a aproximar-se do fim. Na era Keizer em Alvalade, a primeira não chegou a ser problema. Tiago Fernandes tinha feito um trabalho satisfatório e o calendário permitiu ao holandês entrar com facilidade, somando goleadas na Taça e na UEFA. A reação a golos sofridos também não foi um problema. Nos primeiros três jogos, o Sporting sofreu o empate após entrar em vantagem e em todos estes jogos acabou por garantir triunfos confortáveis.

 

Depois, mais tarde, com Aves (0-1) e Nacional (0-2) em Alvalade, a equipa conseguiu dar a volta a situações de desvantagem. Porquê? Porque já havia uma identidade de confiança na capacidade de marcar. O próprio treinador tinha vindo a referir que preferia ganhar 4-3 do que 1-0. Se o adversário marca um, nós marcamos dois. Se marca dois, nós marcamos três. É esta a filosofia que retira peso ao golo sofrido, em contrabalanço com o modelo resultadista da vitória por margem mínima sem sofrer golos, onde uma ligeira alteração ao plano torna tudo mais complicado.

Sporting perdeu pela segunda vez em três jornadas

Em Tondela, como já tinha acontecido em Guimarães, o Sporting passou pelo terceiro momento-chave: entrar nos últimos minutos a perder. Mas, ao contrário do que aconteceu no Minho, surgiu numa posição mais delicada. Primeiro, porque a desvantagem avolumou-se na reta final da partida; depois, porque o leque de opções nunca foi tão curto. Com Bas Dost e Jovane de fora, os leões jogaram com um ataque com Diaby, Nani e Raphinha e um banco de suplentes que tinha apenas uma opção que  podia permitir revolucionar o ataque: Montero.

 

A estratégia de Keizer - e a forma de encarar o jogo - não mudou mas, perante a adversidade, a confiança desapareceu. A equipa deixou de acreditar que seria capaz de chegar ao golo confortavelmente, como tem acontecido em jogos anteriores, deixou de ter alternativas credíveis para tentar abanar o Tondela e perdeu a capacidade de chegar ao desequilíbrio através da filosofia que o holandês tem tentado impor.

 

E cedeu. Cederam os jogadores e cedeu o treinador, ao recuperar um truque que outro treinador vindo da Holanda para Portugal - Bobby Robson - tentou na década de 90: fazer entrar um central para a frente de ataque. Só mudou o Pinto: de João Manuel para André. 

 

A desconfiança foi inimiga da estratégia. Ao deixar de acreditar que seria possível alcançar o objetivo sendo fiel aos princípios, a equipa cedeu à ideia irracional de que a melhor forma de marcar é levar a bola para a área da forma mais rápida possível. Fosse com André Pinto, ou mais tarde com Coates e Mathieu, o Sporting usou e abusou do jogo direto para a área, perdendo a capacidade de raciocínio e promoção do desequilíbrio, sobretudo numa fase que jogava em superioridade numérica.

 

O percalço tem consequências diretas no futuro da equipa. Ficar a oito pontos do FC Porto, uma semana antes de receber os dragões, deixa a equipa num fosso que poderá ser inultrapassável. Além disso, a desconfiança exibida, independentemente de haver atenuantes como a falta de opções (o que deve ser visto também como um alerta para a direção e para o ataque ao mercado de janeiro), abalou a identidade que vinha a ser construída.

 

Essa é mesmo a maior conclusão a tirar do jogo do Tondela. O mês e meio de Keizer ao leme do Sporting não foi suficiente para impor a identidade e o modelo de jogo que preconiza. Ou, também é uma hipótese, não deixa de ser igual a outros que, quando o obstáculo aparece, cede ao facilitismo e está disposto a trair a sua ideia.

 

Na próxima semana, com o FC Porto, estas ideias voltarão a estar em xeque. O que fará Keizer? Uma certeza é indesmentível: o legado do holandês só será verdadeiramente admirável quando, irracionalmente, os jogadores já procurem obedecer às ideias-chave do modelo de Keizer quando o cenário for desfavorável.

 

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