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É Desporto

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24 de Março, 2020

Jugoslávia-União Soviética. Quando Tito e Estaline entraram em campo

Especial Jogos Olímpicos (Helsínquia-1952)

Rui Pedro Silva

Jugoslávia-União Soviética

Jogo da segunda ronda do torneio de futebol dos Jogos Olímpicos em 1952, em Helsínquia, foi muito mais do que uma simples partida. Numa eliminatória espetacular, com 14 golos a contar com o desempate dois dias depois, ninguém ignorou a tensão política que existia entre os dois países.

Não foi a primeira vez, não seria também a última. A história dos Jogos Olímpicos tem-nos ensinado que, edição após edição, há sempre episódios a transbordar de tensão política, onde os conflitos se conseguem imiscuir no espírito olímpico idealizado por Pierre de Coubertin.

Da ausência de convites aos países agressores na Grande Guerra à Alemanha de Hitler, passando pelos conflitos entre as duas Chinas, a primeira metade da história olímpica da era moderna foi rica em situações de tensão. Mas nenhuma, até então, foi levada tão a sério como o jogo de futebol entre a Jugoslávia e a União Soviética, na segunda ronda da prova.

Numa perspetiva redutora, pode dizer-se que foi uma zanga de amigos. Tito e a Jugoslávia eram aliados do bloco oriental, liderado pela União Soviética de Estaline. A falta de apoio dos soviéticos e a tendência para a rebeldia dos jugoslavos ajudaram a subir o ponto de fricção até uma situação irreversível.

A Jugoslávia tornou-se um parente indesejado do bloco oriental, com a União Soviética a incentivar os vizinhos a pôr de lado qualquer ligação mais próxima com o governo de Tito e a prepararem a sua força militar para o caso de uma possível guerra.

Em 1952, os antigos aliados estavam de costas voltadas já há quatro anos e qualquer pequena situação era encarada como fulcral para a afirmação política. O duelo reservado para a segunda ronda do torneio masculino de futebol olímpico tornou-se um assunto de estado e os dois líderes fizeram questão de enviar telegramas para a Finlândia a acentuar a importância de um triunfo.

Em Tampere, no sul do país, cerca de 17 mil pessoas assistiram a um jogo verdadeiramente espetacular. A Jugoslávia pareceu ser bastante melhor e, com uma hora de jogo disputada, goleava por 5-1. Mas os soviéticos sabiam os riscos de uma derrota e marcaram aos 75, 77, 87 e 89 minutos até garantir o empate e forçar um prolongamento sem golos.

Foi preciso marcar uma desforra para dois dias depois. No mesmo estádio, com o mesmo árbitro – o britânico Artur Ellis – e praticamente a mesma lotação. Desta feita, a União Soviética fez questão de entrar melhor, com um golo de Bobrov aos seis minutos, mas não conseguiu manter a vantagem. Ao intervalo os jugoslavos já venciam por 2-1 e seguiram em frente após uma vitória por 3-1. No final, saíram de Helsínquia com a medalha de prata – perdendo apenas para a Hungria de Puskas – e provocaram uma pequena crise na estrutura soviética.

O CSKA Moscovo, que compunha a espinha dorsal da seleção, foi severamente castigado, e o selecionador, o mítico Boris Arkadiev, perdeu a distinção de Mestre do Desporto da União Soviética.

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