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É Desporto

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01 de Abril, 2020

Hungria-União Soviética. O duelo sangrento dentro de água

Especial Jogos Olímpicos (Melbourne-1956)

Rui Pedro Silva

Marcas sangrentas do duelo olímpico

Ocupação soviética em vésperas dos Jogos Olímpicos ajudou a alimentar a tensão entre as duas comitivas. Húngaros eram favoritos no polo aquático e comprovaram-no dentro de água (4-0), rumo a mais um título olímpico, mas para a história ficaram as sucessivas trocas de palavras, agressões e… sangue derramado.

O polo aquático é um bastião húngaro. São a maior potência e viveram um dos seus melhores períodos na década de 50, em vésperas da participação nos Jogos Olímpicos de Melbourne, em 1956. Mas a história política do bloco oriental fez com que o torneio se tornasse uma importante arma de arremesso nesta batalha ideológica.

A revolução húngara em 1956 tinha aberto caminho para que os soviéticos respondessem com uma ocupação forçada em novembro, apenas um mês antes dos Jogos Olímpicos. A seleção de polo aquático foi transportada para a Checoslováquia, para ficar longe dos problemas, e só quando chegou à Austrália soube claramente de tudo o que se estava a passar.

A tensão era máxima. Se fora de campo os soviéticos conseguiam impor-se à força – e até ganhar alguma vantagem desportiva ao espiar os métodos de trabalho húngaros -, dentro de água a história era outra. Ninguém era capaz de derrotar a Hungria. E toda a gente sabia disso.

O favoritismo húngaro antes do penúltimo jogo do grupo que decidia o campeão olímpico, marcado para 6 de dezembro, não era contestado mas toda a gente sabia que aquilo era mais do que um encontro. Havia um clima tenso, com provocações de ambos os lados, e temia-se que o jogo fosse mais do que apenas um duelo.

Os húngaros estavam preparados para provocar os adversários sempre que possível e, do outro lado, os soviéticos não tinham nada a perder, recorrendo livremente à violência para travar os rivais. Os golos da Hungria – quatro – decidiram rapidamente o encontro mas a pancadaria prolongou-se praticamente até ao final.

«Ouvi um apito, olhei para o árbitro e questionei-me qual seria a razão. Ali, naquele momento, soube que tinha cometido um erro horrível. Virei-me para trás e levei um murro na cara. Tentou continuar a esmurrar-me. Devo ter visto umas 4000 estrelas. Enquanto levei as mãos à cara e senti o sangue quente a sair-me do corpo, pensei imediatamente que não poderia disputar o último jogo.»

O testemunho é de Ervin Zádor, a cara mais famosa deste duelo sangrento. Foi ele que «apresentou» a violência deste encontro ao mundo depois de ter sido vítima da fúria do soviético Valentin Prokopov. Os dois estavam pegados há muito e aquele momento foi apenas o desfecho inevitável, que levou os árbitros a dar a partida por encerrada ainda antes do fim do tempo regulamentar.

Não havia condições. Nas bancadas, expatriados húngaros, americanos e australianos torciam abertamente pela Hungria e pediam explicações. Alguns ameaçaram os soviéticos, outros cuspiram-lhes em cima. Não queriam deixar passar em claro aquela agressão. Não por ter sido a primeira mas por se ter tornado a mais óbvia de todas.

Ao contrário do que se passava na Europa, em Melbourne a força bruta da União Soviética não servia de nada. A Hungria chegou ao final da sua participação olímpica só com vitórias e garantiu mais um título; a União Soviética não foi além do terceiro lugar e de uma má imagem mostrada ao mundo.

«Sentimos que estávamos a jogar não apenas por nós mas pelo nosso país inteiro», garantiu Zador, ainda com as marcas do sangue no rosto.

A tensão prolongou-se pós-jogo. Os húngaros temiam o que podiam encontrar no regresso a casa e mais de metade da comitiva que comparecera em Melbourne decidiu desertar. A componente política voltava a aparecer claramente nuns Jogos Olímpicos.

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