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É Desporto

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11 de Março, 2021

Henri Cornet. O homem que venceu o Tour no quinto lugar

Rui Pedro Silva

Henri Cornet

O que têm em comum Lance Armstrong, Floyd Landis e Alberto Contador? Os três ciclistas, dois norte-americanos e um espanhol, chegaram a ser declarados como vencedores do Tour para, anos mais tarde, devido a controlos positivos a doping, perderem a vitória.

Henri Cornet está no extremo oposto. Praticamente um século antes, em 1904, terminou no quinto lugar e, praticamente cinco meses depois, foi declarado como vencedor. Porquê? Bom, querem a versão curta ou a versão longa?

Vamos pela versão intermédia. Esperámos uns minutos por respostas enquanto escrevíamos o texto mas, provavelmente por não o estarem a ler em direto, não tiveram oportunidade de se manifestar e ter uma palavra a dizer nos parágrafos que se seguem.

O Tour estava na segunda edição. Maurice Garin tinha dominado a edição de 1903 do início ao fim e voltava a ser o grande favorito a chegar a Paris na primeira posição. O formato da competição era idêntico ao da estreia e as seis etapas estavam distribuídas entre 2 e 24 de julho.

Talvez seja estranho perceber, tendo em conta o ciclismo moderno, mas houve sempre pelo menos dois dias de descanso entre aventuras, o que se percebe perfeitamente tendo em conta que a etapa mais curta tinha 268 quilómetros, havia três acima dos 400 quilómetros e a mais longa atingia mesmo os 471. Sem esquecer as etapas que começavam à meia-noite.

Dificuldades do início ao fim

Os problemas começaram a surgir logo na primeira etapa. Além de várias quedas feias, o campeão em título Maurice Garin e Lucien Pothier foram atacados por quatro homens de máscara que saíram de um carro. Os dois resistiram, conseguiram terminar a etapa e a vitória foi mesmo para Garin, no final de 467 quilómetros.

«Se não for assassinado antes de chegarmos a Paris, vou vencer o Tour outra vez», disse Garin, ignorando que os maiores problemas – vá, talvez nada tão agressivo como um assassinato – ainda estavam para chegar.

As penalizações também começaram a surgir: havia quem tivesse ciclistas não inscritos a ajudar a marcar ritmo e quem aproveitasse a presença de um carro para ter condições favoráveis no percurso. Pierre Chevalier foi terceiro classificado na etapa acabou desqualificado por ter passado 45 minutos do percurso a descansar dentro de um carro. Já Ferdinand Payan (decorem este nome) foi desqualificado depois de suspeitas de ter tido o auxílio de um motor.

O vencedor da etapa, Maurice Garin, também quebrou as regras. Durante a etapa, e apesar de ser proibido, pediu a comida a um oficia de corrida que, mesmo sabendo que estava a cometer uma ilegalidade, acedeu à requisição com receio de que o principal ciclista do pelotão pudesse desistir.

Na segunda etapa, disputada sete dias depois, começaram as insurreições populares. Alfred Fauré decidiu atacar para passar próxima da sua cidade-natal no primeiro lugar e viu os seus conterrâneos bloquearem a estrada para que todos os outros ciclistas ficassem para trás. No meio da confusão, Garin sofreu uma lesão na mão, Giovanni Gerbi ficou inconsciente, houve vários ciclistas com dedos partidos e a situação só ficou resolvida depois de terem sido disparados tiros para o ar.

Obstáculos sem descanso

Quando o pior já tinha passado, aparentemente, os ciclistas ainda tiveram de atravessar uma estrada repleta de pregos e vidros partidos. O caos acabou por não beneficiar Fauré, no final de 374 quilómetros, e a confusão à chegada, num dia ganho por Hippolyte Aucouturier, foi tanta que os tempos finais não foram mais do que uma estimativa.

A terceira etapa, de 424 quilómetros, entre Marselha e Toulouse, passava pela terra de Payan (lembram-se dele?). O francês insistiu em participar na etapa, nem que fosse apenas naquele dia, mas não teve autorização. Os habitantes estavam furiosos com a desqualificação e atiraram pedras ao pelotão e impediram a passagem na estrada. Déjà-vu?

Depois de um descanso, finalmente, na quarta etapa, os problemas regressaram na quinta e penúltima. Henri Cornet furou os dois pneus mas não teve direito a assistência mecânica, acabando forçado a disputar os últimos 35 quilómetros em circunstâncias pouco amigáveis.

Maurice Garin entrou na última etapa na liderança, com 28 segundos de vantagem sobre Lucien Pothier, e com a possibilidade de repetir o feito de 1903: ser o primeiro do início ao fim da prova.

E foi isso mesmo que aconteceu. O balanço final destacava ainda as quatro vitórias de etapa de  Hippolyte Aucouturier, que terminara na quarta posição da geral. A corrida garantiu a desqualificação de nove ciclistas no total, desde a utilização de motores, aproveitamento de carros e até a utilização de comboios.

O último a rir...

Os organizadores foram para casa com a sensação de trabalho bem feito mas a União Velocipédica Francesa não foi indiferente aos protestos de vários ciclistas e iniciou uma investigação.

Em dezembro de 1904, desqualificou todos os vencedores das etapas e os quatro primeiros da geral. Maurice Garin foi banido por dois anos e perdeu o título e as penalizações a Hippolyte Aucouturier garantiram que o triunfo «póstumo» da segunda etapa tenha sido mesmo atribuído a Alfred Fauré.

Henri Cornet beneficiou no meio do caos. O jovem – tinha terminado o Tour com 19 anos mas a vitória só lhe foi atribuída já com 20 – resistiu à polémica mas também foi alvo de um aviso oficial, depois de ter aproveitado a «boleia» de um carro durante alguns quilómetros. O francês de Pas-de-Calais entrou na história mas o seu sucesso foi fugaz, não voltando a ter um desempenho relevante nos anos seguintes.

O organizador Henri Desgrange ficou desgostoso com o que se tinha passado. Sentiu que a cegueira competitiva tinha levado a melhor sobre o espírito desportivo e não gostou de ter visto a prova envolta em ataques de populares e com os ciclistas a recorrerem a todos os estratagemas para ganharem vantagem.

«O Tour de France terminou e receio que a segunda edição tenha sido a última. Chegámos ao fim e estamos enojados, frustrados e desanimados», lamentou. Mais tarde, repensou e teve uma declaração pouco profética: «Temos de continuar esta grande cruzada moral para limpar o ciclismo, e isso é algo que apenas o Tour conseguirá alcançar».

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