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É Desporto

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20 de Maio, 2020

Gabriella Andersen-Schiess. O drama no final da maratona

Rui Pedro Silva

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Joan Benoit entrou para a história como a primeira mulher a vencer uma maratona olímpica e Rosa Mota garantiu uma medalha de bronze para Portugal mas, como em muitas coisas na vida, o maior destaque nem sempre vai para o campeão ou para o pódio. O final de prova da suíça Gabriella Andersen-Schiess tornou-se imediatamente um dos momentos mais memoráveis da história olímpica.

A integração das provas femininas de atletismo no calendário dos Jogos Olímpicos foi demorada e acompanhada de muitas reticências. Em 1928, por exemplo, havia apenas três provas em pista: 100 metros, estafeta dos 4x100 metros e 800 metros. A alemã Lina Radke foi a histórica vencedora da distância maior mas a forma como algumas das suas adversárias terminaram a prova levou a que o Comité Olímpico Internacional recuasse e retirasse a prova da competição nos anos seguintes.

Foi preciso esperar até 1960 para haver novo evento feminino dos 800 metros. Os mitos sobre a incapacidade feminina de correr distâncias maiores sem correr graves riscos começavam a ser derrubados mas, ainda assim, não se corria sequer um quilómetro seguido. A progressão foi lenta: os 1500 metros apareceram em 1972 e os 3000 (prova exclusivamente feminina) e a maratona em 1984.

Era um período diferente. Continuava a não haver 5000 e 10 000 metros (apareceram em 1996 e 1988, respetivamente), mas abria-se finalmente o caminho para que mulheres corressem finalmente mais de 40 quilómetros de forma continuada. A expetativa era muita e no dia da prova, a 5 de agosto de 1984, 50 atletas de 28 países disseram presente numa manhã de carlor intenso.

Há dados que entram na história: Ifeoma Mbanugo (Nigéria), Akemi Masuda (Japão), Jacqueline Gareau (Canadá), Julie Isphording (Estados Unidos), Anne Audain (Nova Zelândia) e Leda Díaz (Honduras) foram as únicas a desistir; a norte-americana Joan Benoit venceu a medalha de ouro, a norueguesa Grete Waitz a prata e a portuguesa Rosa Mota ficou com o bronze.

Joan Benoit conseguiu completar uma prova irrepreensível, atacando perto dos cinco quilómetros e fazendo toda a corrida sozinha, mas ainda assim não conseguiu ofuscar o feito da suíça Gabriella Andersen-Schiess, que terminou numa modesta 37.ª posição, a praticamente 24 minutos da campeã olímpica.

E o que aconteceu a Schiess? Foi vítima do calor, da exaustão, da traição dos próprios músculos. Já dentro do estádio, talvez depois de o cérebro perceber que o fim estava perto, perdeu o controlo do corpo e percorreu os metros que lhe faltavam de forma impressionante. Torta, com o corpo hirto e descontrolado, foi andando passo a passo, perante a ovação do público norte-americano, até colapsar no chão assim que cruzou a linha de meta.

Curiosamente, a suíça chegou imediatamente antes das outras duas portuguesas em prova: Rita Borralho e Conceição Ferreira.

Schiess estava num estado de desidratação extremo. Com apenas cinco estações de água durante os mais de 42 quilómetros, as oportunidades eram escassas e quem falhasse o reabastecimento corria riscos sérios. Foi o que se passou com Gabriella, que não se apercebeu da quinta e derradeira estação.

O corpo médico apercebeu-se da situação e tentou assistir a corredora antes de esta cruzar a meta, mas foi afastado com acenos espasmódicos de quem quer, a todo o custo, terminar a prova. Durante os últimos 400 metros, a suíça foi obrigada a parar, a garantir que não caía e a percorrer a derradeira etapa da sua prova durante mais de cinco minutos.

O momento em que cruzou a meta foi também o último esforço que conseguiu fazer. Segurada por três elementos do corpo médico, foi transportada para fora do estádio dentro do carro de assistência ao mesmo tempo que era literalmente regada por um barril de água.

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