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É Desporto

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17 de Agosto, 2021

Fernando Ferreira. O fim de um mito paralímpico

Rui Pedro Silva

Fernando Ferreira

O impacto de Fernando Ferreira na história paralímpica portuguesa é de cortar a respiração. São demasiadas marcas, demasiados recordes, demasiados pontos positivos para destacar sem recurso a pelo menos um ponto final que nos dê espaço para respirar, recentrar ideias e reconfigurar o contexto perfeito para aquilo que Fernando Ferreira representa não só para o boccia mas também para o paralimpismo português.

Vamos por partes? Portugal vai ter em Tóquio a sua 11.ª participação em edições de Jogos Olímpicos. Fernando Ferreira esteve em oito. Nascido a 20 de maio de 1973, estreou-se em Seul-1988 com apenas 15 anos e tomou-lhe o gosto. Voltou a estar em Barcelona, em Atlanta, em Sydney, em Atenas, em Pequim, em Londres e no Rio de Janeiro, na altura já com 43 anos.

Fernando Ferreira é recordista. Numa história em que há dez atletas portugueses como pelo menos cinco participações paralímpicas, Fernando Ferreira é o único que atinge as oito. Há cinco anos, no Rio de Janeiro, quando chegou a essa marca, tinha pelo menos duas de vantagem sobre os mais diretos perseguidores: Armando Costa, também do boccia, António Marques, que teve uma primeira passagem pelo atletismo em 1988 mas que fez do boccia a sua verdadeira casa, e Maria Odete Fiúza, que é a única desta lista que vai estar em Tóquio e somar a sétima participação consecutiva.

Mas os recordes não se limitam à longevidade. Fernando Ferreira tem uma média de uma medalha por cada participação paralímpica. Pode ter apenas uma medalha de ouro, longe das quatro de Paulo de Almeida Coelho do atletismo, por exemplo, mas somou uma medalha de ouro, três de prata e quatro de bronze na modalidade. Só António Marques tem tantas medalha paralímpicas como ele.

As oito medalhas têm duas curiosidades interessantes: das oito edições em que participou, só por uma vez não conseguiu subir ao pódio (Londres-2012) – o que é mais um recorde: é o único atleta português a conquistar pelo menos uma medalha em sete edições distintas. De resto, começou com duas medalhas individuais, uma em Seul (bronze) e outra em Barcelona (prata) e a partir daí foram sempre coletivas com exceção para o bronze de Atenas na categoria de BC2, onde sempre competiu individualmente.

E quem compete nesta categoria? Uma das edições da revista Paralímpicos refere que se destina a «jogadores com maior controlo no tronco e braços que os das classes BC1 e BC3» e acrescenta que «o superior controlo dos braços permite aos atletas atirar a bola de formas distintas».

 

«No início achei que era muito fácil mesmo»

O atleta que nasceu com paralisia cerebral e que é natural de Ferreira de Aves, no concelho de Viseu, é, com rigor, uma das maiores glórias paralímpicas portuguesas. Depois de descobrir o boccia durante sessões de fisioterapia na Associação Portuguesa de Paralisia Cerebral de Viseu, nada mais voltou a ser o mesmo. «Fui lá jogar e gostei. No início achei que era muito fácil mesmo. Depois começou a ser mais difícil. Quando percebi melhor o jogo é que percebi que não era assim tão simples como pensava», afirmou em declarações para a dissertação «A experiência vivida de atletas paralímpicos: narrativas do desporto paralímpico português», de Ana Isabel Castro Almeida e Sousa, de 2014.

Se atirar a bola se estava a tornar demasiado simples, largar a mãe foi complicado. «Quando comecei a sair e a ir para os campeonatos, mesmo para fora e para o estrangeiro, aí a minha mãe não ia e comecei a habituar-me. Nos Jogos de Seul foi a primeira vez que fui sem a minha mãe. Sem telemóveis, sem nada. Foi muito difícil essa saída… mas hoje não tenho problemas nenhuns», garantiu.

A presença paralímpica tornou-se algo muito habitual na vida de Fernando Ferreira mas nenhuma foi tão marcante como a primeira. Talvez a que me lembro melhor seja mesmo a de Seul. Fiquei tão emocionado que comecei a chorar quando começo a tocar o hino de Portugal», recordou.

A evolução da própria estrutura paralímpica também deixou marca. «Em Seul era o mais novo e nessa altura ainda não havia dinheiro. Antes não pagavam para jogar. Depois quando comecei a ganhar mais medalhas começaram a pagar-me pelas medalhas e tive direito às bolsas paralímpicas. A partir daí é que acho que comecei a sentir que era mais a sério. Comecei a sentir mais a pressão e a ficar cada vez mais nervoso. O que é certo é que desde aí os meus resultados começaram a piorar, tenho muitos nervos nas competições e tenho muita dificuldade em controlá-los».

 

Da primeira cadeira de rodas elétrica à... namorada

O boccia tornou-se muito mais do que apenas uma forma de passar o tempo, um complemento à fisioterapia: «Mudou tudo! O boccia foi o meu futuro. No fundo é a minha vida. Se não fosse o boccia, o que é que eu fazia? Quando comecei a ganhar algum dinheiro com isso também foi bom porque ajudei aqui em casa. No fundo, o boccia também me deu alguma autonomia. Foi com o dinheiro do boccia que comprei a minha cadeira de rodas elétrica, as minhas coisas, a minha aparelhagem, os meu cds. Se não fosse o boccia nunca teria tido nada disso».

E mudou ainda mais, não apenas no mundo desportivo ou financeiro: «Arranjei uma namorada também. Mas foi ela que me procurou, por eu ser campeão. Acho que se não fosse o boccia se calhar ela nunca tinha olhado para mim».

A entrevista com Fernando Ferreira para a dissertação foi feita após os Jogos de 2012, os únicos sem medalha alcançada. Numa modalidade que já deu 26 pódios a Portugal, as duas últimas edições nunca deram mais do que dois e o Rio de Janeiro foi a primeira vez sem presença nos dois primeiros lugares do pódio.

A justificação para Fernando Ferreira é simples: «Agora está mais difícil, agora os outros países estão mais fortes. Eles treinam muito mais do que nós e têm muito mais apoios. Os adversários estão cada vez mais fortes. Treinam muito, têm bons equipamentos, têm bons técnicos, uma equipa de apoio, e nós não. Acho que isso também acontece porque estamos a ficar velhos. Os atletas portugueses estão a ficar velhos e não aparecem atletas novos. Quem é que vai continuar o nosso trabalho quando nós deixarmos de jogar?», interrogou-se.

A resposta para Tóquio está dada mas é complexa. Dos dez representantes que Portugal terá no boccia, cinco são estreantes. André Ramos é o mais novo com 25 anos, Ana Sofia Costa é poucos meses mais velha mas, por outro lado, Manuel Cruz vai estrear-se com 60 anos e será o elemento mais velho de uma comitiva portuguesa que ainda tem dois pesos pesados: José Macedo (48 anos, seis medalhas olímpicas) e Cristina Gonçalves (43 anos, três medalhas olímpicas). Como será sem Fernando Ferreira?

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