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É Desporto

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Famalicão-Farense. Um sábado de futebol de inverno

Famalicão e Farense não saíram do 0-0

Dizem que o futebol é um desporto de inverno. Uma modalidade em que a chuva é bem-vinda e os relvados lamacentos fazem parte do imaginário de qualquer adepto. De norte a sul do país, não há quem não tenha pelo menos uma memória de um jogo em que a chuva não deu tréguas, a relva não resistiu e os 22 jogadores em campo não foram mais do que heróis a lutar contra todas as adversidades possíveis.

 

Nos anos 90 era comum ver-se bancadas descobertas preenchidas por chapéus-de-chuva. Fazia parte. As famílias iam à bola mas tinham uma proteção. Também era comum ver-se o Famalicão na Liga Portuguesa, depois de a equipa ter subido em 1990 e se ter mantido até 1994, descendo com o Estoril e o Paços de Ferreira.

 

Agora, 25 anos depois, está a lutar pelo regresso com… o Estoril e o Paços de Ferreira. Onde antes havia estrangeiros míticos como Dane, Barnjak e Mihtarsky, Lula ou Tanta, agora há heróis do golo como Fabrício e Walterson e guarda-redes como Defendi. Onde antes havia espaços para chapéus-de-chuva, agora há «sacos de plástico humanos» à venda por cinco euros entre a bilheteira e a entrada no estádio.

 

Um Famalicão-Farense às onze da manhã de um sábado pode ser apetecível – afinal, levou-nos a fazer a viagem desde Lisboa na noite anterior – mas a chuva torrencial, incansável, é suficiente para afastar os mais fiéis. Nas redes sociais, de manhã bem cedo, o Famalicão incentivou os adeptos a irem ver o encontro mas as respostas não foram propriamente afirmativas.

 

«Vais ficar em casa?», perguntava a página oficial. «Se calhar vou ficar em casa, ‘tá chovendo», respondia um. Nós não respondemos mas não virámos a cara à luta. Depois de uma semana a recuperar de uma gripe – que na verdade ainda não está recuperada – já tínhamos feito a viagem até Vila Nova de Famalicão. Desistir agora não estava nos planos.

 

Depois das pizzas e dos pães com chouriço, chegaram as bebidas

 

As iniciativas do Famalicão nas últimas semanas foram virais. Primeiro a entrega de caixas de pizza no intervalo da deslocação a Coimbra, depois os pães com chouriço para os adeptos do Estoril. Desta vez, estávamos curiosos para saber se haveria surpresa, mas a única coisa que apanhámos foi a bebida. Água natural… servida durante todo o encontro.

Adeptos do Farense em Famalicão

A bancada Porminho, descoberta, aguentou os mais corajosos. Numa ponta, estavam os cerca de 20 adeptos do Farense que fizeram o caminho desde o sul para apoiar a equipa. «Somos nós, somos nós, o orgulho do Algarve somos nós!», gritavam, imparáveis, ignorando o facto de terem quase mais água na roupa do que nas suas famosas praias. Na outra ponta, os do Famalicão seguiam a mesma onda, quase literal.

Claque do Famalicão

Não havia estratégia infalível para nos protegermos da chuva. Houve quem tenha preferido ir para o topo da bancada, aproveitando a proteção dos cartazes publicitários, e quem tenha aceitado pagar os cinco euros dos tais «sacos de plástico humanos», impermeáveis que cobrem quase a totalidade do corpo. E ainda quem tenha ignorado o tempo, concentrando-se no jogo e adiando a preocupação da chuva para o final do encontro.

 

A chuva pode ser desagradável, pode afastar adeptos, tornar a experiência negativa e afetar o futebol das duas equipas, mas também traz algo de mágico a um jogo. Por um lado, parece transportar-nos até à nossa infância, onde brincar, correr e jogar futebol à chuva era a paixão proibida e constantemente reprimida pela família e educadores de infância. Por outro, é capaz de tornar o jogo mais puro. Quem está ali, está por gosto, por paixão. Ninguém vai ver um jogo destes por estar na moda ou simplesmente por não ter mais nada para fazer. Fá-lo por gostar de futebol, por gostar do seu clube. E não falta quem viva apaixonado pela sua equipa em Famalicão.

 

No meio do barulho da chuva, até a acústica do estádio parece melhor. Ouvem-se as pingas a cair nas bancadas ainda repletas dos papéis que ficaram do Famalicão-Estoril – com quase cinco mil pessoas – mas também as constantes indicações, gritos e exasperos de quem está em campo. Cada pancada na bola é um solo de orquestra com 22 intérpretes que representam forças contrárias.

 

A magia do futebol numérico

Foi impossível fugir à chuva

A massificação do futebol contribuiu para a extinção de um dos fenómenos mais brilhantes de viver durante um jogo. Chamemos-lhe «futebol numérico». É algo que ainda se vive constantemente nos escalões de formação e divisões secundárias mas que tende a desaparecer à medida que as equipas são mais famosas e os seus jogadores mais conhecidos.

 

Dito de forma mais simples de perceber, é a forma como os adeptos contrários tendem a dirigir-se aos jogadores apenas e só pelo número que têm na camisola. Ali, na bancada do peão, Jorge Ribeiro, Irobiso e Fabrício Isidoro não são mais do que o 16, o 9 e o 14.

 

Num espaço de cinco minutos, somos expostos ao futebol numérico em toda a sua magnitude. «Ó 14, vai para o ginásio! Olha-me para essas perninhas de alicate. Levanta-te, pá!», começam por gritar depois de uma falta. Pouco tempo depois, os alvos mudam. «Ó 16, meteste a bola no 9 mas ele é burro!», sugere outro, sem boas intenções.

 

Jorge Ribeiro, o jogador mais famoso do Farense, ficou com o brinde durante toda a segunda parte. Afinal, cada reposição lateral ou jogada mais perto da linha foi uma forma de aproximação aos adeptos. «O 16 parece uma velha de 60 anos a pegar na bola!», grita novamente o mesmo adepto, enquanto mais tarde, um outro lança uma sugestão de futuro: «Vai para a reforma, pá!».

 

Os insultos são outro fator integrante. Fazem parte. Não têm maldade, saem da boca como quem respira e por vezes até ganham pontos pela originalidade. Sim, há sempre espaço para os mais banais, em que as mães dos jogadores são visadas, mas num caso específico esse mesmo insulto é exponencial. Um dos jogadores não é filho de apenas uma, é filho de 30. Por outro lado, há quem prefira manter o tom cordial e se dirija ao árbitro com um respeito reverencial: «Senhor árbitro, como é?».

 

Tensão sobe de tom numa manhã sem tréguas

 

Famalicão e Farense não conseguiram sair do nulo. Em boa posição para subir, os famalicenses assumiram as despesas do jogo mas caíram na teia dos algarvios… ou escorregaram nas poças que o tempo lhes tinha reservado.

 

A relva tornou-se cada vez mais um adversário com o passar do tempo, a bola foi ficando cada vez mais pesada e os nervos à flor da pele fizeram o resto. Num lance, Jorge Ribeiro e Capela acabam expulsos com vermelho direto depois de o Famalicão não ter devolvido uma bola. A traição surpreendeu os algarvios e, muito a jeito para uma manhã como esta, o caldo ficou entornado.

 

O nervosismo alastrou-se às bancadas mas continuou a haver espaço para o humor. Num dos momentos em que a chuva torrencial mudou de intensidade, apenas para mostrar que tinha ainda mais para dar, ouviu-se um desabafo que soltou as gargalhadas dos restantes. «Epá, o tempo está a mudar. Está a ficar sol! Já sinto o calor e tudo…», diz um, provocando um suplício de outro: «Então, São Pedro?!».

 

O desabafo era legítimo. Já não era suficiente estar há 80 minutos debaixo de chuva constante, ainda era preciso aumentar a intensidade da coisa só para provar quem manda? Só nos restava adaptar. Afinal, éramos os mesmos que, ao intervalo, tínhamos provocado um êxodo em massa ao recolher para o túnel da bancada, onde um espaço inferior a 50 metros quadrados foi obrigado a ter capacidade para albergar a cerca de centena de gatos pingados que não viraram a cara à luta.

Bancada ofereceu proteção durante o jogo

A expressão no rosto de um segurança durante o jogo disse tudo. De costas para o jogo, encharcado até à alma, com os braços protegidos por baixo de uma espécie de bolsa à barriga, tinha um olhar completamente perdido no betão de um dos degraus da bancada. Absorto nos seus pensamentos, rendido à ingratidão de acordar cedo a um sábado para estar duas horas debaixo de chuva num jogo que não provocou problemas de maior.

 

Podia ser pior, podia ter ido à praça comprar peixe. Mas não: estava apenas num jogo, num sábado de futebol de inverno. Um daquelas à antiga. Só foi pena não haver golos.

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