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É Desporto

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16 de Março, 2021

Errol Tobias. O primeiro negro a jogar pelo Springboks

Rui Pedro Silva

Errol Tobias

Nasceu a 18 de março de 1950, um de nove filhos, num país que não estava preparado para ter negros a representar os Springboks. A África do Sul era um país fortemente segregado, a inclusão racial era uma miragem e as inúmeras federações de râguebi ajudavam demonstrá-lo.

As federações eram racialmente exclusivas e apenas algumas equipas promoviam a abertura. Errol Tobias sempre gostou de râguebi e contou com o apoio da família para tentar chegasse até onde conseguisse. O pai era um ídolo e os dois não perdiam uma oportunidade para ver os melhores jogos, mesmo que o acesso nem sempre fosse fácil.

O caminho para Tobias chegar aos Springboks passaria pela equipa júnior da Proteas, antes de ser considerado para a equipa da WP League, a «equipa de cor» que jogava na competição para brancos da SARB (South African Rugby Board). Depois havia os South African Barbarians (equipa mista), os sub-23 Gazelles, os junior Springboks e, finalmente, os Springboks.

«Tive de mostrar o que valia nos maiores palcos do rugby Springbok. Fui gozado e humilhado mas as minhas qualidades eram fantásticas e ajudaram-me a passar de um pequeno degrau para a plataforma mais elevada até eventualmente me tornar o primeiro Springbok negro em 1980», disse Errol Tobias.

Danie Craven foi muito importante durante todo este período. Era o presidente da Federação Sul-Africana de Râguebi e não era necessariamente um radical. O seu objetivo não era implementar uma mudança radical na sociedade ou na política no país, mas percebia que era preciso fazer concessões para salvar o râguebi da África do Sul, sobretudo a nível internacional. Havia constantes boicotes – que se prolongaram até à exclusão dos dois primeiros Mundiais, em 1987 e 1991 – e Craven soube trabalhar bem com as federações de râguebi para jogadores de cor e para jogadores negros.

Evolução gradual

Errol Tobias

O caminho de Errol Tobias foi lento mas sustentado. Começou por ser selecionado para os South African Barbarians em 1979, a primeira equipa multirracial a jogar no estrangeiro, durante uma digressão no Reino Unido. Tinha oito brancos, oito negros e oito «jogadores de cor», como eram vistos na altura. A iniciativa foi muito criticada em Inglaterra por ser vista apenas como mais uma manobra de diversão do regime africano para esconder o racismo existente no país.

Depois de ter brilhado pelos Junior Springboks em 1980, Errol Tobias teve uma proposta do presidente da federação francesa de râguebi para ir jogar três anos para França. Mas a mãe convenceu-o a não ir, tal como a mulher. Sobretudo porque estava cada vez mais próximo de atingir o sonho de representar os Springboks.

A mãe, tão importante também na definição da sua carreira, morreu a 3 de setembro de 1980, um mês antes de um telefonema decisivo. Tinha sido convocado para uma digressão dos Springboks na América do Sul. Os jogos deviam ter sido na Argentina mas acabaram por se disputar no Paraguai, Uruguai e Chile, por causa do apartheid.

A estreia foi em Assunção, no Paraguai, numa vitória por 84-6 contra a seleção local. Tobias fez um ensaio, brilhou no ataque e ganhou a alcunha de Pelé sul-africano. Foi o primeiro de 13 jogos que disputou pelos Springboks. No terceiro, bateu um recorde com dez pontapés aos postes com sucesso. A estreia em casa aconteceu durante um triunfo sobre a Irlanda por 23-15. Foi o primeiro de seis jogos de teste que realizou.

Em 1981, fez uma digressão com os Springboks na Nova Zelândia mas não chegou a jogar. Houve mais de 200 manifestações violentas espalhadas por 28 cidades com um total de 150 mil manifestantes. O râguebi estava em ebulição e jogar na África do Sul ou contra equipas sul-africanas era mal visto um pouco por todo o lado.

A inclusão de Errol Tobias era, de acordo com muitos, pouco mais do que um oásis, conforme escreveu Gert van der Westhuizen, editor de desporto do jornal Beeld: «A sociedade não era normal. Nem sequer havia essa ilusão. Tobias estava limitado sobre onde poderia viver, onde poderia trabalhar, para quem poderia trabalhar, para onde poderia ir de férias, em que escola poderia deixar as crianças, onde ir ao supermercado. Nem sequer podia ler o que queria, nem decidir hospital ou cemitério».

Errol Tobias era muitas vezes acusado de ser apenas um trunfo do regime para provar algo que na verdade não existia. E Errol percebeu-o uma vez, em 1982, quando parou durante uma viagem de carro num restaurante à beira da estrada. Os proprietários reconheceram-no e serviram-no com pompa e circunstância, mas instantes depois recusaram servir outro casal com a desculpa de não servirem pessoas de cor.

Havia uma dualidade óbvia. A sociedade não estava a mudar, havia apenas uma exceção para Errol Tobias. E o jogador não se mostrava necessariamente incomodado com isso: «O apartheid era um sistema político horrível mas queria aproveitar para mostrar à África do Sul e ao resto do mundo, da minha maneira e através dos meus talentos, que os jogadores negros são pelo menos tão bons como os brancos».

Durante os estágios que foi fazendo, sentiu que houve sempre estupefação dos colegas de equipa brancos, com as circunstâncias que partilhavam. «Afinal de contas, lemos todos da mesma Bíblia, comemos a mesma comida, porque as nossas mães trabalhavam nas cozinhas de muitas casas de brancos, falávamos a mesma língua. A única diferença é que tinham crescido numa sociedade que os fazia pensar que eram os patrões e os negros eram inferiores».

Mudanças nos Springboks?

Springboks

Errol Tobias chegou a partilhar balneário com Avril Williams, outro jogador negro. Mas depois foi preciso esperar por 1995, ano do Mundial conquistado em casa, para aparecer Chester Williams.

A entrada no século XXI continuou sem resolver o problema. Os Springboks «ainda são demasiado brancos porque os políticos continuam a ser políticos e o racismo está a crescer», afirmou, lamentando, no início da última década, que pouco tenha mudado desde 1984.

As oportunidades continuam a escassear, e não apenas nos Springboks mas também nas condições de fundo. Não existem instalações, oportunidades, hipóteses. Mas, ao mesmo tempo, Errol Tobias manifesta-se visceralmente contra as quotas no desporto profissional.

«Depois de 20 anos de democracia, por que é que continua a ser necessário utilizar quotas? Não será uma questão de consciência pesada? As pessoas têm vergonha de admitir que não foram honestas quando prometeram investimento no talento desportivo. Por que outra razão é que as seleções continuam a ser esmagadoramente brancas? Por que razão havia dois Springboks de cor em 1984, sem qualquer investimento e, tantos anos depois, continua a haver apenas dois? Não é apenas uma razão de treinadores e selecionadores brancos ou racistas», escreveu Errol Tobias.

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