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É Desporto

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15 de Junho, 2020

Eric Moussambani. Aprender a nadar para ir aos Jogos Olímpicos

Rui Pedro Silva

Eric Moussambani

Nadador da Guiné Equatorial foi uma das coqueluches dos Jogos Olímpicos de Sydney, em 2000. O atleta que tinha acabado de aprender a nadar venceu uma eliminatória dos 100 metros, numa corrida em que estava completamente sozinho depois de os dois adversários terem sido desqualificados por falsa partida. Prova foi lenta, muito lenta, e Moussambani não se agarrou à corda por pouco.

Ryan Lochte conquistou cinco medalhas de ouro nos Mundiais de natação em Xangai em 2011 e tornou-se uma figura incontornável. Na mesma edição, com sete medalhas (apenas quatro de ouro), Phelps igualou o recorde de pódios numa única edição de mundiais. A tendência parece ser clara: para entrar na história é preciso conseguir grandes resultados.

Mas, como em todas as tendências, há exceções. Em 2000, Eric Moussambani tornou-se o nadador mais lento – e ainda assim mais emblemático – da história dos 100 metros livres. O sonho de Pierre de Coubertin implicava a envolvência de vários povos e culturas reunidos em torno do desporto. Por isso, naquele ano, o Comité Olímpico decidiu levar a ambição mais além.

Dessa forma, foram dadas oportunidades a atletas de países em desenvolvimento e Eric Moussambani, da Guiné Equatorial, foi escolhido para competir numa das eliminatórias dos 100 metros livres. Na mesma prova, Moussambani teria a companhia de outros dois atletas na mesma situação: Karim Bare (Níger) e Farkhod Oripov (Tajiquistão). Se os fatos de poliuretano foram proibidos entretanto, em 2000 já Moussambani se contentava por utilizar apenas uma tanga azul.

Os milhares de adeptos das bancadas não sabiam o que estava prestes a acontecer, mas aquele jovem de 22 anos do Equador africano seria o vencedor da prova mais solitária e peculiar da história da natação. Bare e Oripov, quiçá nervosos com a estreia, cometeram uma falsa partida e foram desqualificados. Moussambani estava sozinho e tudo dependia dele.

O nervosismo era natural. Afinal de contas, tinha aprendido a nadar em janeiro desse ano e até chegar à Austrália nunca tinha visto uma piscina de 50 metros. Nem nadado 100 metros seguidos. A experiência de Eric limitava-se à piscina de 20 metros de um hotel em Malabo, a capital da Guiné Equatorial. O tiro de partida soou e Moussambani fez-se à água. O recorde mundial era do australiano Michael Klim, com 48,18 segundos, mas o objetivo era apenas completar a prova.

Cedo se percebeu porquê. As dificuldades técnicas eram óbvias, a cabeça estava sempre acima da linha de água e até ficar com o corpo numa posição horizontal parecia difícil para Moussambani. À passagem dos primeiros 50 metros, o tempo de 40,97 segundos não deixava grandes promessas para a segunda metade. O pesadelo do nadador africano estava a começar. A inexperiência fez daqueles segundos 50 metros um calvário e só os gritos do público o impediram de desmoralizar nos últimos metros quando as braçadas o pareciam afastar da meta, em vez de aproximar.

Na prova em direto, um comentador chegou mesmo a prever que Moussambani teria de se agarrar à corda. «Os últimos 15 metros foram difíceis», afirmou, para depois agradecer a um público que já estava completamente rendido a Eric, a Enguia, como ficou conhecido: «Quero mandar abraços e beijinhos ao público. Foram os aplausos que me fizeram conseguir». O resultado de 1:52.72 não desmotivou Moussambani.

Foi mais do que o dobro dos melhores do mundo, nem sequer daria para bater o recorde dos 200 metros e está ao nível dos nadadores mais rápidos no escalão entre os 100 e os 105 anos, mas para o africano valeu a pena. Saiu de Sydney com a promessa de voltar quatro anos depois e, apesar de em 2004 já conseguir completar a distância em menos de 57 segundos, não viajou para Atenas. Os problemas com o passaporte, sem fotografia, impediram-no de cumprir o segundo sonho olímpico.

A desilusão falou mais alto e, aos 26 anos, Moussambani optou por abandonar a carreira: «Gostaria de continuar a nadar mas não sei se vou conseguir. As pessoas queriam que eu voltasse. Queriam ver-me em Atenas. É terrível o que me fizeram. Deixa-me zangado porque estava a treinar para isso».

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