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É Desporto

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08 de Fevereiro, 2022

Eileen Gu. A diplomacia de uma agente dupla

Rui Pedro Silva

Eileen Gu

Ser ou não ser deixou de ser a questão. William Shakespeare faz parte do passado e a dúvida em pleno século XXI, durante os Jogos Olímpicos de Inverno em Pequim, centra-se agora no ser que se é.

A biografia da nova campeã de big air no site dos Jogos Olímpicos lança mais achas para a fogueira. Nome? Ailing Eileen Gu. Mas não é bem assim. Gu, apelido de família, cose-se por linhas demasiado ténues com direito a confusão.

Nasceu na Califórnia, tem mãe chinesa e só decidiu representar a China em 2019. «Foi uma decisão muito difíceis de tomar. Tenho orgulho da minha herança e também dos valores americanos enquanto crescia», começou por escrever num post no Instagram.

Gu foi mais longe para justificar a sua opção que deixou muitos americanos à beira de um ataque de nervos: «A oportunidade de ajudar a inspirar milhões de jovens no país de onde a minha mãe é durante os Jogos Olímpicos de Pequim é uma oportunidade única para promover o desporto que amo».

«Através do esqui, espero unir pessoas, promover a compreensão mútua, criar vias de comunicação e estabelecer amizade entre as duas nações. Se conseguir ajudar uma jovem a derrubar um muro, os meus desejos serão concretizados», acrescentou.

A discussão sobre a nacionalidade de Gu não tem solução e é alimentada pela própria. Nos Estados Unidos é Eileen Gu, na China é Gu Ailing. «Quando estou nos Estados Unidos sou norte-americana; quando estou na China, sou chinesa».

Esta solução salomónica, que na verdade agrada a muito pouca gente, foi a encontrada por Gu para tentar ter o melhor dos dois mundos. Na teoria, a ideia de Gu faz sentido. Na prática, tem sido atacada por todos os lados por quem não percebe como foi capaz de virar as costas aos Estados Unidos e abraçar um país que fecha os olhos a alguns dos direitos humanos mais fundamentais (se é que há alguns que sejam mais fundamentais do que outros).

A intenção de Gu é nobre mas a discussão subiu de tom na última madrugada depois de vencer a medalha de ouro. Foi o desfecho perfeito para um país organizador que se valida através de medalhas e fecha cada vez mais os olhos a naturalizações apressadas para garantir supremacia desportiva.

Eileen Gu, como se apresenta nas redes sociais, não sente que tenha de resolver o mal do mundo e está a fazer apenas a sua parte. Está a homenagear a mãe, está a homenagear a avó, está a abrir caminho para que futuras chinesas possam ver no desporto uma forma de afirmação.

Gu não é uma verdadeira agente dupla. Pode até querer agradar a gregos e troianos, mas não esquece a diplomacia. Numa relação marcada cada vez mais por espinhos, Gu continua a ver apenas rosas. Onde cheira a tensão diplomática, Gu sente apenas o aroma do desporto, das medalhas, dos bons exemplos.

Não é suposto que Eileen tenha de mudar o mundo sozinha. Há várias formas de subir uma montanha e a nova campeã olímpica, de apenas vinte anos, tentou descobrir a sua. Arcou com as consequências da sua decisão e tem sido atacada pelas fações trumpianas que nunca deixaram cair a ideia de um vírus criado para derrubar a sociedade, mas esse é um problema que ignora.

Eileen Gu deu um exemplo. Atravessou uma ponte em vez de lançar uma bomba. Explicou o que queria, o que pretendia. Demonstrou que é possível lançar o diálogo. E, sobretudo, chamou a atenção para os milhões de norte-americanos que têm ascendência chinesa. O mundo é do tamanho de uma caixa de fósforos e nem todos os caminhos têm de passar por uma ignição.

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