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É Desporto

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23 de Julho, 2021

Dina Pouryounes. Das ruas dos Países Baixos ao ponto alto olímpico

Rui Pedro Silva

Dina Pouryounes

Nasceu a 1 de janeiro de 1992 no Irão mas o caminho para os Jogos Olímpicos de Tóquio só se começou a desenhar nos Países Baixos, depois de muito sofrimento, uma vida inteira deixada para trás, algumas noites ao frio e, sobretudo, uma segunda oportunidade encontrada no taekwondo. Esta é a história de Dina Pouryounes, da equipa olímpica de refugiados.

«Estou tão feliz por ir competir em Tóquio. Espero que toda a gente se mantenha feliz mas, para mim, a Covid-19 não é uma preocupação», disse Dina durante uma reportagem feita pela Al Jazeera.

A iraniana não estava necessariamente a desvalorizar a pandemia. Estava sobretudo a valorizar o seu esforço. O seu percurso. A sua história de vida. E como tudo isto será coroado mesmo sem uma medalha.

Com 29 anos e uma vida de desilusões para trás, Dina Pouryounes encontrou no taekwondo uma motivação contagiante. E é graças a essa paixão que estará a competir na categoria de -49 quilos. Dina tem um historial de participações nas principais competições mas nos Mundiais, por exemplo, não conseguiu passar da primeira ronda tanto em 2019 como em 2017.

A carreira de Dina não se faz de medalhas, nem de amores de água fresca. Faz-se de suor, esforço e um mote incansável de «treinar arduamente para conseguir aquilo que se merece». E não deixa de ser curioso que a iraniana dê tanto valor ao mérito quando, claramente, já teve de passar por várias coisas que ninguém merece.

A primeira foi uma fuga para a frente. Ou melhor, do Irão para os Países Baixos, em 2015. Deixou família e amigos para trás à procura de uma vida melhor. De segurança. De paz. Mas foi difícil encontrar tudo o que precisava no início. Não encontrou uma casa, foi sem-abrigo durante alguns tempos e tornou-se rapidamente numa refugiada a viver em refúgios temporários.

Dina estava frustrada. Tinha passado pela experiência mais traumática da sua vida e, como em tantas outras histórias, encontrou num desporto de contacto uma forma de canalizar a raiva, libertar as frustrações e de beneficiar com a adrenalina. Foi assim que o taekwondo passou de tubo de escape para motor de arranque para uma nova vida.

A sua história começou a mudar logo em 2015 quando ainda vivia num centro de asilo. Venceu o primeiro torneio internacional, na Polónia, e começou a assumir-se como uma figura de relevo. Não entre as melhores do mundo, mas boa o suficiente para ser encarada como uma atleta de respeito.

Dina competiu como refugiada nos Mundiais de 2017, a convite da federação internacional de taekwondo, e percebeu que era uma vida que poderia continuar. A estreia olímpica em Tóquio surgiu como mais um passo natural da carreira.

Em abril de 2020, numa altura em que os Jogos nesse ano eram já uma miragem, chegou a ocupar o terceiro lugar do ranking mundial na categoria de -49 quilos. Num ano muita coisa pode mudar – e mudou mesmo -, mas o sonho de Dina vai mesmo concretizar-se.

Não interessa o título, o pódio ou um diploma olímpico. para uma atleta refugiada. Interessa mostrar que as vidas podem ter uma segunda oportunidade, que vale a pena dar um passo atrás, por mais doloroso que seja, para que os restantes possam ser para a frente, sustentados, com cuidado.

Dina é iraniana de coração mas foi forçada a deixar o seu país para trás. Não será a única em Tóquio. Na própria delegação iraniana no Japão há quatro mulheres (duas no karaté, uma no badminton e outra no atletismo), mas provavelmente nenhuma terá sido forçada a batalhar tanto para chegar onde chegou. E não apenas no taekwondo.

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