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É Desporto

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Dick Advocaat. A herança no Rangers foi pior que o legado

Dick Advocaat iniciou três épocas ao serviço do Rangers

Treinador holandês chegou à Escócia depois de o clube protestante ter falhado o décimo título consecutivo. O objetivo era a glória europeia e o dinheiro não parou de pingar durante três épocas. O endividamento foi uma das causas para o desaparecimento do clube em 2012.

 

A chegada de Dick Advocaat a Glasgow em 1998 começa a contar-se dez anos antes, quando David Murray comprou o clube por seis milhões de libras. A equipa tinha sido campeã apenas uma vez nessa década, em 1987, mas os sinais eram positivos. O Celtic estava numa situação financeira debilitada, os clubes fora da órbita de Glasgow caminhavam para a insignificância e o novo proprietário prometia investimento, muito investimento.

 

Primeiro com Graeme Souness, até 1991, e depois com Walter Smith, até 1998, o clube entrou num dos melhores períodos desportivos da sua história. Foi campeão na primeira temporada de Murray, em 1989, e construiu o maior período hegemónico dos protestantes na liga durante os nove campeonatos consecutivos conquistados entre 1989 e 1997.

 

A última temporada de Walter Smith foi um fiasco. David Murray e o Rangers tinham a obsessão de ganhar o decacampeonato, batendo o recorde estabelecido pelo maior rival entre 1966 e 1974. Mas, por esta altura, já o Celtic tinha recuperado o suficiente para evitar que história fosse feita: recuperou o título ao terminar o campeonato com dois pontos de vantagem sobre o Rangers.

 

A saída de Gascoigne, no último terço da época, para o Middlesbrough, por 3,45 milhões de libras, não explica tudo. Uma vez mais, a tendência tinha sido esmagadoramente maior no sentido de compras do que de vendas. Em Itália, Murray recrutou Lorenzo Amoruso à Fiorentina por cinco milhões, Sergio Porrini à Juventus por quatro, e Marco Negri ao Perugia por 3,7 (a custo zero, por exemplo, chegaram o ex-Benfica Jonas Thern e o também italiano Gennaro Gattuso). No total, foram gastos 14,5 milhões de libras e faturados menos de um terço em vendas. Os sintomas estavam todos lá.

 

Advocaat e a nova obsessão

Glória nacional não chegou à Europa

A impaciência de Murray subiu de tom após a perda do décimo título consecutivo. Aquela fora a sua primeira obsessão desde o momento em que assumiu o controlo do clube e agora, novamente na estaca zero, foi obrigado a encontrar uma nova forma para mostrar que o Rangers era superior ao Celtic… historicamente.

 

O Celtic tinha nove títulos consecutivos. O Rangers tinha nove títulos consecutivos. O Celtic tinha uma Taça dos Campeões Europeus conquistada (1967), o Rangers tinha… apenas uma Taça das Taças (1972).

 

A glória europeia tornou-se o novo objetivo do Rangers e Murray sabia que tinha de tomar passos concretos nesse sentido. Para começar, fez uma promessa arrojada: «Por cada cinco libras que o Celtic investir, o Rangers vai investir dez».

 

O holandês Dick Advocaat chegou do PSV e foi visto como o treinador que ia ajudar o clube a dar o passo seguinte nas competições europeias. Desde 1988 os resultados eram terríveis e só por uma vez foram vistos como satisfatórios. Em 1992/93, o Rangers ficou em segundo lugar no grupo A com oito pontos. O Marselha, com nove, seguiu para a final e derrotou o Milan. Este era o período em que as equipas disputavam duas rondas a eliminar antes de se dividirem em dois grupos de quatro para encontrar os finalistas.

 

Liberdade total nas contratações

 

A aposta em Dick Advocaat era muito simbólica. Em mais de 100 anos de história, o clube nunca tinha tido um técnico estrangeiro no seu comando e a expectativa era enorme.

 

O clube viu sair jogadores como Brian Laudrup, Gennato Gattuso e Joachim Björklund mas não fez mais do que 7,6 milhões de libras. Em sentido oposto, gastou praticamente 36 milhões de libras. Andrei Kanchelskis foi a contratação mais cara (5,5 milhões pelo jogador da Fiorentina), mas Van Bronckhorst, Arthur Numan, Gabriel Amato e Colin Hendry também representaram investimentos iguais ou superiores a quatro milhões.

 

Começaram com um passo em falso, perdendo na capital com o Hearts, mas partiram para uma temporada arrasadora dentro de portas: campeões com seis pontos de vantagem sobre o Celtic, vencedores da Taça da Escócia (1-0 vs. Celtic) e da Taça da Liga (2-1 vs. St. Johnstone) E na Europa? O clube foi eliminado na terceira ronda da Taça UEFA, pela Parma, após eliminar Shelbourne e PAOK (pré-eliminatórias), Beitar e Leverkusen.

 

Na época seguinte, e pela primeira vez desde 1992, o Rangers teve uma balança comercial positiva no mercado de transferências. Michael Mols (quatro milhões) foi a única contratação significativa e, em sentido contrário, saíram Amato (3,75) e Guivarc’h (3,4). O lucro total entre entradas e saídas não atingiu os dois milhões e meio. Havia a confiança de que a equipa tinha uma base sólida. Afinal, vencera todas as competições internas e na UEFA só fora eliminado pelo futuro campeão.

 

Mais do mesmo e impaciência crescente

David Murray com Dick Advocaat

O campeonato em 1999/2000 foi um passeio para o Rangers, que venceu o título com 21 pontos de vantagem sobre o Celtic. O Aberdeen foi a figura nas outras duas competições: o Rangers venceu-lhe a final da Taça da Escócia mas foi eliminado nos quartos da Taça da Liga.

 

E na Europa, o mais importante? Dick Advocaat vingou-se do Parma na terceira pré-eliminatória e conseguiu o apuramento para a fase de grupos. Contra Bayern Munique, Valencia e PSV, terminou na terceira posição e saiu para a Taça UEFA. Aí, caiu logo em dezembro na terceira ronda, no desempate por penáltis com o Dortmund.

 

David Murray ficou impaciente e decidiu dar uma última ajuda a Advocaat. O saldo das contratações e vendas na época seguinte voltou a ser arrasador no prejuízo: praticamente 31 milhões gastos e apenas 4,2 milhões faturados. Mais do que isso, o clube fez história ao pagar doze milhões de libras ao Chelsea pelo norueguês Tore André Flo.

 

Um trio de holandeses, composto por Ronald de Boer, Bert Konterman e Fernando Ricksen, significou também um investimento de 12,4 milhões. Era o tudo ou nada para a equipa. Não havia mais margem para errar.

 

Não estava destinado. A participação europeia foi idêntica: apuramento para a fase de grupos, terceiro lugar na Liga dos Campeões e eliminação à primeira na Taça UEFA contra alemães (Kaiserslautern desta vez). Mas o pior veio a nível doméstico: além de perder contra o Dundee United nos quartos da Taça da Escócia e para o Celtic nas meias da Taça da Liga, o Rangers não conseguiu somar o tricampeonato e ficou a 15 pontos do rival de Glasgow.

 

Verdade seja dita, Dick Advocaat já não era o treinador desde dezembro. Assim que a equipa caiu na Europa, disse adeus à ilha e voltou para a Holanda. As eliminações nas taças domésticas já foram com o sucessor Alex McLeish.

 

Herança pior do que o legado

Tore Andre Flo foi a contratação mais cara na história

David Advocaat falhou e contribuiu para o fim do Rangers. Venceu dois campeonatos e três taças mas falhou sempre, de forma idêntica aos seus antecessores, na UEFA. E teve milhões para gastar como nenhum outro antes dele e nenhum outro depois dele.

 

A janela de oportunidade de David Murray foi-se fechando mas, para muitos, este período de loucura durante os anos 90 foi a principal razão da destruição do Rangers e desaparecimento em 2012. Gozando de boa reputação entre os bancos, somou dezenas de milhões de empréstimos que nunca poderia ter forma de pagar.

 

O endividamento foi apenas uma das razões. Durante o período louco, o Rangers usou e abusou de um esquema de fuga ao fisco, pagando aos jogadores através de um fundo que pertencia a David Murray. Quando o clube foi acusado pelo fisco, caiu numa espiral negativa que acabaria com a insolvência.

 

Dick Advocaat sempre recordou o seu período com normalidade. Achava que tinha liberdade para gastar e realçou que os jogadores contratados tinham qualidade e podiam ser vendidos por igual ou superior valor. Sendo verdade, a realidade acabou por ser muito diferente, uma vez que a corda foi esticada até ao limite.

 

O holandês só participou em dois anos e meio dos mais de vinte da gestão de David Murray, mas será sempre recordado como o expoente máximo do período louco que destruiu um clube à conta de uma obsessão de ser melhor do que o rival. O complexo do proprietário saiu caro e hoje, 21 anos depois da chegada de Advocaat, o Celtic segue com sete títulos consecutivos. Até onde vai chegar?

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