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É Desporto

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Diane Crump. A mulher que se recusou a voltar para a cozinha

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mudança para a Florida lançou as sementes de uma paixão pelo mundo dos cavalos. Com 18 anos fez história e, apesar da muita resistência, tornou-se a primeira mulher a participar numa corrida. Disseram-lhe para voltar para a cozinha mas não lhes fez caso. «Gosto de pensar que fui uma pequena pegada no caminho para a igualdade.» 

 

Do anonimato para os livros de história

 

«Vive o teu sonho. Não deixes que alguém te diga o que podes ou não fazer ou que não és boa o suficiente. Tu és. Sou uma maria-ninguém, mas apareço nos livros de história. Não o planeei. A única coisa que fiz foi seguir a minha paixão, aproveitar um dom que tinha e nunca o ter deixado morrer.»

 

Diane Crump diz que é feminista mas que sempre se viu mais como uma defensora da igualdade de direitos universais. Nascida em 1948, cresceu no meio de longas batalhas, fossem de mulheres, da comunidade afro-americana ou de defensores da paz, durante a Guerra do Vietname. Os Estados Unidos estavam em constante rebuliço e a natural do Connecticut seria vista como um ícone da quebra de barreiras.

 

Não foi fácil. E não o fez de forma premeditada. «Dizia-se que o lugar das mulheres era na cozinha ou a tomar conta das crianças. O movimento dos direitos das mulheres estava em andamento mas, para ser honesta, só estava preocupada com os cavalos. Só queria competir. Eu marchava ao som do meu próprio tambor.»

 

Um amor para a vida toda

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Diane tinha 12 anos quando deixou o nordeste dos Estados Unidos para ir viver para a Florida. O destino fez com que ficasse perto de um centro hípico e que não demorasse muito tempo a encontrar um amor que seguiria com ela para sempre.

 

A curiosidade fez com que começasse a trabalhar com cavalos, ajudando aqui e ali onde podia, e o momento em que aprendeu a galopar abriu caminho para um mundo de oportunidades que lhe estava… vedado.

 

A primeira corrida, a 7 de fevereiro de 1969, foi um misto de emoção e conflito. Um ano antes, duas mulheres tinham tentado desempenhar o papel de pioneiras mas os homens boicotaram a prova e as rulotes em que estavam hospedadas acabaram apedrejadas.

 

«Diziam que não éramos fortes ou inteligentes o suficiente para disputar uma corrida. Pensavam que seria perigoso correr contra nós porque achavam que não saberíamos o que fazer sob pressão», explicou Diane Crump em entrevista à imprensa norte-americana, revelando que no ano seguinte já não houve forma de impedir que se fizesse história.

 

Não houve forma mas houve tentativa. «A multidão estava a esmagar-me. Os homens estavam loucos, com os braços no ar, e gritavam para eu voltar para a cozinha e para ir fazer o jantar. Era essa a mentalidade na altura. Pensavam que eu seria o início do fim do desporto, o que é um pensamento muito medieval. Eu só pensava como era possível continuar-se a pensar assim nos anos 60…»

 

Os adversários também não estavam satisfeitos com esta novidade. «Há 82 boas razões para que mulheres e homens não compitam juntos. São os 82 jóqueis que já morreram em acidentes desde 1940», disse um. Diane não lhes fez caso. É certo que precisou de escolta policial, que se esqueceu de tirar um relógio de ouro de pulso antes de subir para o cavalo e que só baixou os óculos de proteção para os olhos quando foi avisada pelo adversário da pista do lado, mas nada disso iria afetar o seu desempenho.

 

Quando a corrida acabou, Diane foi décima entre 12 participantes. Mais do que o resultado, tinha demonstrado capacidade para desempenhar aquela tarefa tão bem ou melhor do que os homens. E, a partir daí, o mundo abriu-se ligeiramente, devagar. No ano seguinte, tornou-se a primeira mulher a correr o Kentucky Derby – a prova mais emblemática nas corridas de cavalos – e nunca mais parou.

 

«Foi um carrossel de excitação e desafios. Era uma miúda de 19 anos a competir há um ano e que andava a percorrer o país por todo o lado e pelo estrangeiro, por Porto Rico, Venezuela e México, para competir contra homens», recordou.

 

Abrir caminho para o futuro

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Diane Crump só se preocupava em fazer aquilo que mais gostava mas percebia que estava a ser importante na luta pela igualdade e que «alguém tinha de abrir caminho». «Não foi só por causa de mim mas acho que fui uma parte importante. A mentalidade nos anos 60 é que as mulheres não eram inteligentes ou fortes o suficiente para serem jóqueis. Eu provei que podíamos desempenhar esta tarefa. Gosto de pensar que fui uma pequena pegada no caminho para a igualdade.»

 

Durante os vinte anos seguintes, venceu mais de 230 corridas e começou a ver outras mulheres na pista, algumas com mais sucesso ainda. Correr o Kentucky Derby, ainda hoje muito fechado – apenas seis mulheres já o fizeram -, «foi um grande passo em frente» e Diane nunca esqueceu esse momento «como jóquei, como mulher e como pessoa».

 

O mundo dos cavalos é uma constante na vida de Diane Crump. Uma queda em 1989, praticamente no aniversário do momento histórico, teve efeitos catastróficos – perna partida em seis sítios diferentes, mais fraturas no tornozelo e em várias costelas -, mas a paixão manteve-se inquebrável.

 

Numa primeira fase, impulsionada pelas mensagens de apoio e pelos incentivos – houve quem se tenha oferecido para pagar todas as despesas do hospital e de reabilitação -, chegou mesmo a regressar às pistas por alguns meses. Depois, quando percebeu que o seu ciclo tinha terminado, criou uma empresa ligada ao hipismo.

 

Há amores que duram para sempre e essa sempre foi a principal posição de Crump: não deixar morrer o seu dom e a sua grande paixão.

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