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É Desporto

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15 de Julho, 2020

David Katoatau. Dançar para não chorar

Rui Pedro Silva

David Katoatau

Halterofilista do Kiribati pode não concluir os levantamentos do peso com sucesso mas insistiu em sair em grande após cada tentativa nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016. A razão? Alertar o mundo para o desaparecimento do seu país por culpa da subida do nível médio do mar. «Imploro aos países do mundo para verem o que está a acontecer ao Kiribati. A verdade é que não temos recursos para nos salvarmos. Vamos ser os primeiros a desaparecer», disse.

Foram três atletas em Atenas, dois em Pequim, três em Londres e novamente três no Rio de Janeiro. Os números não provocam grande surpresa: afinal, estamos a falar de um país perdido no meio da Oceânia com cerca de 100 mil habitantes.

No Brasil, ainda assim, o Kiribati foi mais falado do que a maioria, por culpa de um halterofilista de 32 anos chamado David Katoatau. Porta-estandarte, e o primeiro na história do país a conseguir efetivamente o apuramento para uns Jogos Olímpicos (2012), não apresentou grandes resultados, mas sim grandes danças.

No final de cada tentativa de levantamento do peso, brindava a assistência com passos divertidos e inesperados. David dançou para não chorar. Dançou para chamar a atenção do mundo, com sucesso, para o que está a acontecer no Kiribati, um país a desaparecer progressivamente com a subida do nível médio do mar.

 

A carta emocionada

A iniciativa de David não é recente. Já o faz há alguns anos. Em 2015, decidiu escrever uma carta aberta ao mundo a explicar o que se está a passar.

«Nunca me senti tão impotente na vida. Como desportista, dou tudo ao meu país mas não o posso salvar. Em nome de todas as pessoas que morrerão por um país que vai deixar de existir e pela cultura que será esquecida, peço-vos ajuda.

No ano passado construí a única casa que poderia pagar [David Katoatau aproveitou os cerca de oito mil dólares de prémio por ter vencido a medalha de ouro nos Jogos da Commonwealth], logo ao lado da casa dos meus pais. Uns meses depois foi destruída pelas ondas.

As milhares de crianças que conheci nas escolas têm o sonho de alcançar algo na vida. Como é que lhes posso mentir e dizer que podem concretizar os desejos, se o nosso país está a desaparecer?

Imploro aos países do mundo para verem o que está a acontecer ao Kiribati. A verdade é que não temos recursos para nos salvarmos. Vamos ser os primeiros a desaparecer.»

 

Problema assumido

A situação do Kiribati é grave e o país poderá mesmo afundar-se antes de 2050. Em 2014, o governo gastou sete milhões de dólares em terrenos nas ilhas Fiji para ter um espaço para cultivo e refúgio, caso seja precisa uma evacuação urgente.

Já em 2016, o presidente cessante, Anote Tong, aconselhou a população a «emigrar com dignidade» para países vizinhos. Um homem tentou fazê-lo para a Nova Zelândia e iniciou uma disputa em tribunal para ser o primeiro refugiado das alterações climáticas. Perdeu.

Para David Katoatau, a situação deixa-o inconsolado. «A maior parte das pessoas nem sabe onde é o Kiribati. Uso a minha dança para mostrar isso ao mundo. Não sei quantos anos faltarão até a ilha desaparecer», lamenta.

O seu treinador, Paul Coffa, um australiano de origem italiana, compreendeu as limitações de David e o objetivo no Rio de Janeiro: «Não tem a ver com a medalha de ouro, estes miúdos não têm capacidade para isso. Para ele, o simples facto de transportar a bandeira para o mundo a ver já é muito importante. É o estar lá.»

 

Condições de treino

O subtítulo existe, está a negrito a separar os parágrafos e tudo, mas o conteúdo não. Pelo menos no Kiribati. «Não havia ginásio quando comecei a praticar halterofilismo, quando era mais novo, e continua sem existir», contou David.

«Tinha de ir treinar para a praia. Como a barra ficava demasiado quente por causa do sol, tinha de ser às seis da manhã», acrescenta o halterofilista que foi treinar e viver para a Nova Caledónia com 16 anos.

O futuro continuava incerto na altura. Depois de perder a primeira casa para as ondas, David e os pais construíram outra. «Mas está próxima do mar e estamos sempre preocupados.»

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