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É Desporto

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30 de Julho, 2021

Cyrille Tchatchet II. A importância da segunda oportunidade

Rui Pedro Silva

Cyrille Tchatchet II

Não há razões únicas para conduzir alguém a uma modalidade. Pode ser um herói na televisão, pode ser um pai ou uma mãe, pode ser um amigo na escola. Como nos dizem vezes sem conta enquanto crescemos, às vezes o que interessa realmente é encontrar alguma atividade que nos faça felizes e desperte o bichinho de continuar para sempre.

Para o camaronês Cyrille Tchatchet II, o fator determinante foi uma fotografia. De um familiar, é certo, mas uma fotografia. «Foi muito aleatório. Olhei para uma fotografia do meu tio a fazer halterofilismo numa parede e pensei que queria fazer o mesmo.» Assim tão simples.

O caminho estava apenas a começar. Cyrille contou o objetivo à mãe e, de familiar em familiar, passando por vários primos, o jovem chegou finalmente a um ginásio para fazer halterofilismo. Tinha 14 anos e um mundo de sonhos pela frente. Foi supersónico: «Vi a fotografia a um sábado e na segunda-feira comecei a fazer halterofilismo».

A história parece um conto de fadas mas está longe de o ser. Cinco anos depois, Cyrille já era um dos atletas mais conceituados do país e foi escolhido para representar os Camarões nos Jogos da Commonwealth de 2014, na Escócia. Teria sido uma boa oportunidade para mostrar as suas qualidades, mas assim que chegou ao norte da ilha… fugiu.

«Saí literalmente do estágio dos atletas em direção à cidade e acabei a dormir na rua nessa noite. Contei a minha história a alguém com quem me cruzei na rua e levaram-me para Londres», recordou mais recentemente. O calvário de Cyrille estava apenas a começar.

«Meteram-me num autocarro em direção a Brighton e não havia nada sobre Brighton que eu soubesse, mas era tão longe quanto possível», lembrou, falando de uma cidade que estava praticamente no ponto oposto da ilha, longe dos restantes camaroneses da comitiva. O problema veio depois: Cyrille estava abandonado e sem saber o que fazer.

«Pensei durante muito tempo em tomar uma decisão drástica. Queria pôr fim a tudo. Chegou a um ponto em que perguntava por que é que estava a desperdiçar tempo em vez de despachar logo tudo. Pensava desta maneira porque sentia que era inútil. Mas depois vi um número de telefone ao meu lado, de uma associação samaritana, que aconselhava a ligar caso alguém se sentisse em baixo», afirmou.

«Tinha algum saldo no meu telemóvel, por isso liguei. Perguntaram-me onde estava e desconfio que foram eles que ligaram à polícia porque, uns minutos depois, apareceu um carro. E travaram qualquer ideia que eu pudesse estar a ter», continuou.

Depois de bater no fundo, Cyrille começou a retomar a motivação de viver a pouco e pouco. Recuperou o interesse pelo desporto e preocupou-se em estudar, precisamente numa área com a qual se sentia muito identificado – na prestação de cuidados relacionados com saúde mental.

«A grande aprendizagem que fiz é que preciso de me manter ocupado e que há uma grande ligação entre o bem-estar físico e o mental. Acho que sou o exemplo perfeito de como o exercício positivo pode influenciar alguém», diz.

Hoje, sete anos depois, está nos Jogos Olímpicos. E não fugiu. Tem esperança, está ocupado, é uma pessoa diferente da que teve medo de regressar aos Camarões. Continua a sentir-se camaronês mas compete pela equipa de refugiados. E faz o que sempre gostou, pelo menos desde que viu aquela fotografia na parede.

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