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É Desporto

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18 de Junho, 2020

Cathy Freeman. No melhor exemplo caiu o ouro

Rui Pedro Silva

Cathy Freeman

Descendente de aborígenes, velocista australiana aceitou o peso da responsabilidade de mostrar ao mundo a sua história e a explosiva mistura de gerações durante a cerimónia de abertura. Dias depois, onde mais importava, fez questão de ganhar a corrida dos 400 metros e garantir que era mais que um exemplo.

Cathy Freeman representava a história da Austrália. Neta de uma aborígene que foi roubada à família para ser criada por brancos, era também descendente de chineses e sírios. Num único corpo, conhecido pelos feitos desportivos, o comité organizador encontrou a melhor forma de explicar ao mundo como o povo australiano era diversificado.

O convite para acender a pira olímpica surpreendeu a atleta. Medalha de prata dos 400 metros nos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996, e bicampeã do mundo da mesma distância (Atenas-1997 e Sevilha-1999), a australiana estava apenas preocupada em confirmar o favoritismo e vencer perante o seu público.

«Foi um momento surreal. Estava embrenhada no meu treino e a garantir que o meu corpo estava no ponto e o telefonema chegou sem aviso. Fiquei assoberbada pela hipótese», contou ao site dos Jogos Olímpicos.

O momento, de uma beleza incrível, marcou a vida de Cathy Freeman, dos australianos e de todos aqueles que a viram pela televisão. Não apenas pelo gesto em si mas pelo que simbolizava.

A prioridade era, ainda assim, vencer em pista. Era para isso que tinha trabalhado e não admitia outra possibilidade. Depois de passear durante as eliminatórias, Freeman correu a final num fato completo que se tornou um dos momentos mais memoráveis e, ao mesmo tempo, excêntricos da competição. Com o estádio a abarrotar com 112 mil pessoas e audiências televisivas na Austrália a bater todos os recordes, a australiana correu por tudo o que representava e atingiu a medalha de ouro, superando a jamaicana Lorraine Graham e a britânica Katharine Merry.

A ovação pareceu eterna. Cathy Freeman limitou-se a ficar sentada na pista, aliviada por tirar um peso dos ombros mas, ao mesmo tempo, aborrecida por ter feito um tempo demasiado lento (cerca de meio segundo) para o que era o seu recorde pessoal.

Hoje, tantos anos depois, o tempo é o menos importante. Não há australiano que tenha vivido aquele momento que não reconheça Cathy Freeman e faça questão de a interpelar para contar a sua história, de como foi importante e memorável aquela vitória. «Quando esses momentos acontecem, é quase ver um espetáculo de magia. Tenho tentado todos os dias, todos os anos, respeitar a forma como as pessoas se relacionam com aquela corrida. É muito intenso, muito honesto», explicou.

Cathy Freeman foi apresentada como um símbolo de unidade e não defraudou as expetativas. Naquela noite de setembro de 2000, e para sempre desde então, será uma memória partilhada por milhões, de todos os quadrantes e origens australianas.

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