Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

É Desporto

É Desporto

19 de Agosto, 2021

Carlos Lopes. O homónimo paralímpico que prolongou o sucesso

Rui Pedro Silva

Carlos Lopes

Carlos Lopes é o melhor atleta olímpico português da história. A afirmação pode merecer alguma discussão mas há factos que, se forem aceites como decisivos, não dão margem para discussão. Carlos Lopes não é apenas um de cinco campeões olímpicos, é o primeiro de todos. E Carlos Lopes não é apenas um de três campeões olímpicos que têm outra medalha no currículo, é o único que somou uma prata e não um bronze, como Rosa Mota e Fernanda Ribeiro.

Falar de Carlos Lopes será sempre falar de glória desportiva portuguesa. E isso tanto é verdade para o desporto olímpico para o paralímpico. Sim, no paralímpico esta superioridade não é tão perentória, mas os números deste outro Carlos Lopes, a figura deste texto, também não dão espaço para grandes dúvidas.

Na história dos Jogos Paralímpicos, Portugal está prestes a ultrapassar a marca dos 200 atletas – acontecerá em Tóquio-2020. Sabem quantos conseguiram quatro medalhas de ouro? Apenas dois: Paulo de Almeida Coelho e… Carlos Lopes. A diferença é que enquanto o primeiro o fez apenas em provas individuais, o segundo beneficiou de uma medalha em estafetas.

Entre 1992 e 2008, Carlos Lopes venceu medalhas nas primeiras três, mas ficou em branco em Atenas e Pequim. Até lá, pareceu praticamente insuperável. Em Barcelona-1992, na estreia, foi campeão paralímpico nas provas de 200 metros e 400 metros na categoria de B1 (a mais grave para atletas com deficiência visual). Quatro anos depois, em Atlanta, foi bronze na prova de T10 (numa altura em que já tinha havido uma recategorização) e em Sydney-2000 juntou a medalha de ouro na estafeta dos 4x100 metros de T13 à dos 400 metros em T11.

Feitas as contas, foram quatro medalhas de ouro e uma de bronze num total de cinco medalhas. Mesmo apesar de falhar os pódios em 2004 e 2008, Carlos Lopes continua a ser um dos melhores atletas de sempre em medalhas acumuladas (esquecendo os ouros): só António Marques (8), Fernando Ferreira (8), Paulo de Almeida Coelho (7), Susana Barroso (6), António Carlos Martins (6), José Macedo (6) e Carlos Amaral Ferreira (6) têm mais. E Carlos Lopes é também um de nove atletas com medalhas em pelo menos três edições de Jogos Paralímpicos.

Carlos Lopes

A paixão pela corrida chegou muito antes do prazer pela competição. Carlos corria de e para a escola, tentava bater os seus próprios tempos e nem sabia que havia um mundo de oportunidades de desporto à sua espera. Carlos nasceu em Alverca com uma deficiência visual progressiva que se começou a manifestar a partir dos 13 anos e essa perda de sentido acabou por marcar a sua vida.

Na escola, nunca teve verdadeiro apoio e eram mais os professores que procuravam uma desculpa para não terem com o que se preocupar do que aqueles que exploravam a integração. Só com 20 anos, já depois de entrar na universidade, é que o desporto entrou de forma séria na sua vida e, com ele, a obsessão pela competição.

«Lembro-me de que no primeiro ou no segundo sábado em que fui treinar, quando os treinadores me começavam a falar em tempos e na possibilidade de ver quanto é que se faz aos 100 metros, aos 200, aos 400… eu ficava entusiasmadíssimo por poder bater aqueles recordes e por achar que aqueles tempos estavam perfeitamente ao meu alcance», contou na entrevista para a dissertação «A experiência vivida de atletas paralímpicos: narrativas do desporto paralímpico português», de Ana Isabel Castro Almeida e Sousa, de 2014.

A verdade é que os resultados, as medalhas e os recordes começaram mesmo a cair e Carlos Lopes tornou-se não só uma ameaça para quem vinha antes mas também para quem desempenhava o papel de ser seu guia. Esta foi, aliás, uma das maiores dificuldades ao longo da sua carreira. Carlos Lopes era demasiado rápido e encontrar um guia que o conseguisse acompanhar trazia problemas ao nível de calendarização. Não porque não pudesse haver quem desempenhasse essa tarefa mas sim porque quem tinha capacidade de ocupar esse cargo era também ele um atleta com as suas próprias competições.

O desporto de alta competição abriu também a porta para a aceitação do que era enquanto pessoa e atleta. «O desporto permitiu-me contactar com outras pessoas com deficiência visual e fez-me perceber que elas próprias aceitavam a sua deficiência e brincavam com ela. Há uma história que conto sempre sobre isto. Lembro-me quanto entrei no balneário, pela primeira vez, fui contra uma parede. E há uma das pessoas que estava no balneário que também era cega e comentou: ‘Eh pá, tu parece que és cego!’. Aquilo mexeu muito comigo, porque se me chamassem cego na escola isso era uma ofensa, era desagradável e ali eu tive de perceber que na realidade é isso que eu sou. Acho que esse foi um momento muito importante mesmo», recordou.

Carlos Lopes também não tem dúvidas sobre o impacto que os Jogos Paralímpicos têm num atleta, por mais medalhas que possam ser conquistadas em Europeus ou Mundiais. «Nos Jogos Paralímpicos entramos no estádio com 40 a 50 mil pessoas e às vezes mais. Toda a envolvência da aldeia paralímpica, a dimensão das coisas, o seu simbolismo é diferente e isso mexe com todos os atletas».

A própria perceção mediática tem evoluído bastante desde Barcelona. «Esses, por exemplo, quase não foram falados, os de Atlanta também não. Acho que em Sydney e Atenas se começou a falar um bocadinho mais e por aí fora. Acho que hoje as pessoas, embora não conheçam individualmente a maior parte dos atletas paralímpicos, pelo menos quando se fala deles já têm um reconhecimento e um carinho especial. Eu sinto isso quando falo com as pessoas na rua. Há muita gente que me conhece, que me vem cumprimentar. Noto que há um carinho muito grande pelos paralímpicos, pelo reconhecimento daquilo que fazemos e pelos resultados que os paralímpicos conseguem alcançar», afirmou.

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.