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É Desporto

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23 de Abril, 2020

Bob Beamon. Um salto para a história

Especial Jogos Olímpicos (México-1968)

Rui Pedro Silva

Bob Beamon

Prova do comprimento nos Jogos Olímpicos da Cidade do México, em 1968, recuperava os três atletas que tinham terminado no pódio em Tóquio-1964 mas o grande favorito era um norte-americano que vinha a dominar todas as provas em que participava. Tinha 24 anos, chamava-se Bob Beamon e dinamitou o recorde mundial.

Esta é a história de um salto que esteve perto de não acontecer. Bob Beamon vencera 22 das 23 provas anteriores mas mantinha uma deficiência delicada: a propensão para realizar saltos nulos. Durante a qualificação para a final, o norte-americano começou por errar nos dois primeiros ensaios e, tal como Jesse Owens em 1936, viu a final ficar mais longe. E, tal como em 1936, houve um rival a ajudar. O compatriota Ralph Boston vestiu a pele do alemão Luz Long e ofereceu o mesmo conselho: fazer a chamada antes do habitual.

O resultado foi o que toda a gente esperava: um salto modesto de 8,19 metros mas ainda assim mais do que suficiente para ser o segundo melhor da qualificação. A final estava a caminho e a concorrência prometia ser dura.

O pódio de Tóquio-1964 repetia presença na final: o britânico Lynn Davies, o norte-americano Ralph Boston e o soviético Igor Ter-Ovanesyan. Além disso, havia ainda Klaus Beer, a ameaça da Alemanha Oriental.

Naquele dia, 18 de outubro, o tempo estava nublado e Bob Beamon era o quarto a saltar. Os três primeiros adversários fizeram ensaios nulos e aumentaram o nervosismo do grande favorito. Se até os outros o estavam a fazer, por que não o faria ele também, sobretudo alguém famoso por fazer mais nulos do que a média?

O que aconteceu foi chocante. Beamon não só não fez nulo como realizou uma sucessão de movimentos perfeitos: a corrida, a chamada, o salto e a aterragem. Resultado? O recorde mundial que estava nos 8,35 metros foi dinamitado por… 55 centímetros.

Ninguém queria acreditar. E Bob Beamon nem percebeu o que se passava, sobretudo por estar habituado a ver as marcas em pés e não em metros. De repente, a verdade caiu-lhe sobre os ombros e desfez-se em lágrimas, emocionando com «o» salto da história desportiva.

Os 8,90 metros entraram imediatamente no imaginário do salto em comprimento. Desde 1901, quando as marcas começaram a ser registadas, o recorde mundial nunca tinha sido batido por mais de 13 centímetros. Agora, de repente, Bob Beamon aumentava mais de meio metro. Seria impensável, mas aconteceu. A altitude da Cidade do México pode ter ajudado, mas o salto nunca deixaria de ser gigantesco.

Bob Beamon deixou-se levar pelo momento e, apesar de ter saltado mais uma vez, acabou por abdicar dos quatro últimos saltos a que tinha direito. Feitas as contas, conquistou a medalha de ouro com uns impressionantes 71 centímetros de vantagem sobre Klaus Beer.

A carreira olímpica de Beamon acabou ali e, apesar de ter chegado a ser escolhido no draft da NBA, pelos Phoenix Suns, nunca chegou a ser utilizado num jogo. O atletismo pode ter ficado para trás, mas a sua marca resistiu à passagem do tempo e foi preciso esperar por 30 de agosto de 1991, nos Mundiais de Atletismo em Tóquio, para que alguém conseguisse finalmente superar o registo: Mike Powell saltou 8,95 metros, naquela que ainda hoje é a melhor marca de sempre.

O salto de Bob Beamon mantém-se como segundo salto mais distante na história do comprimento. Pode não ter sido o maior mas, tendo em conta as proporções, ainda é recordado como «o» salto. Ninguém acreditou que pudesse acontecer, poucos perceberam quando de facto foi feito e todos recordam hoje onde estavam e como o viveram.

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