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É Desporto

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02 de Abril, 2022

Barcelona vs. Real Madrid. Més que un joc

Rui Pedro Silva

Coreografia no início do jogo

José Maria Pedroto não era fã de ter muitos jogadores brasileiros no plantel e chegou mesmo a dizer algo como «um é bom, dois é demais, três é uma escola de samba». Quando se fala do jogo entre Barcelona e Real Madrid, da prova feminina da Liga dos Campeões, é possível parafrasear a ideia, mas falando de espetadores. Mil era mau, 50 mil era aceitável, 91553 é um recorde mundial.

A vitória das catalãs sobre as merengues por 5-2 não foi apenas um jogo, foi um exemplo. Foi uma ilustração do caminho que foi percorrido, do percurso que ainda pode ser feito e da margem que há para evolução. Não foi uma vitória, não foi o final da guerra. Foi uma batalha de expetativas que foi ganha com uma dimensão que superou até as previsões mais otimistas.

Estar no Barcelona-Real Madrid tornou-se real a 13 de janeiro. De um momento para o outro, no Twitter, o clube catalão anunciou que tinha bilhetes à venda mas que estavam quase a esgotar. Custaram seis euros e meio cada um mais dois euros e meio de taxas administrativas. Resumindo, era possível assistir a um jogo histórico no Camp Nou por apenas nove euros.

O menu do encontro tinha ingredientes muito aliciantes. Era um jogo do Barcelona. Era um clássico contra o Real Madrid. Era a segunda mão de uma eliminatória na Liga dos Campeões. E era a primeira vez – era assim que estava anunciado no tweet – que a equipa feminina ia jogar no Camp Nou.

Bater o recorde de assistência não estava na cabeça de ninguém, pelo menos na altura. Até porque no momento da compra o anel superior ainda nem sequer tinha sido aberto para venda. Foi a promoção do jogo, a expetativa criada, o entusiasmo de quem comprava um bilhete e levava consigo mais alguém, a possibilidade de dar um exemplo, que tornou um jogo talvez pensado para bater as 60 mil pessoas que tinham estado no Atlético Madrid-Barcelona no Wanda Metropolitano numa sensação global a bater as 90 mil pessoas que estiveram na final do Mundial de 1999, no Rose Bowl, entre Estados Unidos e China.

O Barcelona-Real Madrid foi mais que um jogo. E digo isto sem piada, sem me ter rendido apenas, de forma preguiçosa, ao lema do clube catalão. Mas também foi um jogo. E foi um grande jogo. Havia o «ambiente de Champions» à volta do estádio, com milhares de pessoas desde muito cedo, um autocarro a ser esperado por uma multidão de adeptos e inúmeras áreas de entretenimento para garantir uma experiência inesquecível.

Entretenimento começava do lado de fora

Houve também, claro está, o jogo. O Barcelona trazia uma vantagem de 3-1 da primeira mão e venceu 5-2. O espetáculo nas quatro linhas teria sido bom até se disputado no campo do Carcavelos a uma quinta-feira, com mais gente na feira do que a olhar para o relvado, mas com milhares de pessoas nas bancadas ganhou uma aura diferente.

Houve golos inesquecíveis. Atuações memoráveis. Gestos técnicos que lançaram bruás nas bancadas. As blaugrana e as merengues vestiram-se a rigor e mostraram o que cada vez mais gente sabe: o jogo é só um, o espetáculo é só um, a qualidade é só uma. E, acima de tudo, que há uma grande diferença entre a Liga dos Campeões de futebol feminino e a prova feminina da Liga dos Campeões. Porque as palavras importam e talvez devamos ter mais cuidado com o que representam.

O futebol pode parecer diferente – e há diferenças, claro -, mas o Barcelona de Guardiola e o Real Madrid de Mourinho também eram ideias que tocaram no cúmulo do antagonismo e nunca deixaram de ser vistos como o mesmo futebol. Diferentes, certo, mas sempre futebol.

O Barcelona-Real Madrid serviu também como uma exposição nesse sentido. A casa cheia deu espaço para servir de lição. Desde a enorme coreografia que foi preparada ao pormenor para salientar a ideia «More than Empowerment», assim mesmo, em inglês, para abraçar a dimensão internacional que o jogo teria, até à necessidade de a repetir porque os problemas do futebol à quarta-feira ao final da tarde são os mesmos em todos os cantos do mundo.

Apito inicial foi dada com muitas cadeiras vazias ainda

Com apito inicial da pioneira Stéphanie Frappart marcado para as 18h45, havia muitas cadeiras ainda por ocupar. Toda a primeira parte foi disputada com pais a chegarem com filhas, mães a subirem as escadas com filhos, grupos de amigos adolescentes a saltitarem de cadeiras até aterrarem finalmente nos lugares que lhes tinham sido atribuídos. E a claque, também havia a claque.

O jogo foi uma experiência completa. Foi futebol, sim, mas também foi aprendizagem. Porque não pode ser por acaso que uma mãe ou um pai faça questão de voar da escola até ao estádio para levar um filho ou uma filha de quatro ou cinco anos, às vezes ambos, para ver este jogo. A paixão clubística não explica tudo. Ali, naquela experiência, naqueles 90 minutos (com direito a encore das jogadoras do Barcelona após o apito final), houve uma lição de igualdade, de progressão, de feminismo.

Repito: o jogo foi tudo o que um jogo deve ser. Estive pela quarta vez no Camp Nou e só por uma vez houve mais gente no estádio, num Barcelona-Arsenal em 2010. O ambiente não foi radicalmente diferente. A euforia da bancada, os cânticos, a vontade de vencer, o rejubilo pela reviravolta de 1-2 para 4-2 em dez minutos, o regozijo por mais uma «manita» ao Real Madrid. Estava lá tudo. Foi um jogo de futebol. Um jogo de futebol, apenas.

Olga marcou o penálti do Real Madrid com 90 mil a assobiar

E ao mesmo tempo foi muito mais. Não foi uma vitória final. Não foi este jogo a mostrar que a partir de agora vai ser tudo igual. Não se pode esperar que a equipa feminina do Barcelona comece a jogar sempre no Camp Nou, que o estádio encha sempre, que os bilhetes possam acrescentar um zero à direita no valor de entrada e que tudo seja igual.

Mas foi uma vitória intermédia. Foi uma prova do que pode vir a ser. Uma prova de que é possível caminhar nesse sentido. Uma prova de que o futebol praticado por mulheres não é apenas um epifenómeno, resignado a brilhar em situações pontuais durante o ano para depois ficar à sombra daquele que é jogado por homens.

Foi uma vitória da experiência. Da nossa, que tivemos o privilégio de estar com mais de 90 mil pessoas a assistir àquele momento histórico, que nos levou a pensar que outro evento teríamos já visto com tanta gente, apenas para chegar à conclusão que fosse futebol, futebol americano, basebol, Mundial de rugby ou qualquer outro momento desportivo, apenas por uma vez tinha estado num jogo com mais gente. Ali, em Camp Nou, para o tal Barcelona-Arsenal. E isso deixa marca.

Lá está, foi um jogo de marcas. E a marca de 91553 espetadores num estádio é a menos importante. Fez primeira página de jornais em Espanha e no resto do mundo decente, mas foi apenas um número. Aqui, as marcas são outras. É a marca que nos fica pela experiência. A nós, que estamos mais afastados desta evolução no feminino, mas sobretudo a quem anda a luta por isto e a quem disso pode beneficiar no futuro.

É a marca de quem nunca pensou poder ver um jogo destes no Camp Nou e assistiu de lágrimas nas bancadas. É a marca de quem está a crescer e viu neste exemplo de representatividade uma inspiração para o futuro. É a marca de quem pode até vir de sucessivas gerações de machismo na família e percebe agora que a igualdade não é uma fábula contada nas escolas entre tantos outros conceitos que desaparecem num abrir e fechar de olhos. É a marca de quem esteve no relvado e terá tido, muito possivelmente, o ponto alto de uma carreira, tenha ou não Bolas de Ouro no palmarés.

O anúncio do recorde foi recebido com euforia

Foram mais de 90 mil pessoas. Adultos e crianças. Aprendemos todos. Ficámos todos marcados por aquele momento. Para os mais novos, poderá ser mesmo a primeira experiência inesquecível da vida: ir ao futebol, talvez pela primeira vez, ver uma goleada ao Real Madrid  com o estádio cheio. Quando contarem esta história nos próximos anos, será assim mesmo. Ser praticado por mulheres talvez nem faça diferença. Não que não seja importante mas porque o caminho a seguir aponta nesse sentido: deixar de diferenciar, deixar de assinalar obrigatoriamente com um asterisco que é «futebol feminino».

É futebol. Como o atletismo é atletismo. Porque os feitos de Rosa Mota e Fernanda Ribeiro nunca tiveram de ser enquadrados como atletismo feminino. Porque Heike Dreschler está no Olimpo ao mesmo nível de Nelson Évora. Porque o desporto é uma coisa linda e perdemos demasiado tempo a fazer distinções que não fazem sentido.

O Barcelona-Real Madrid foi mais que um jogo, é verdade. Mas acima de tudo foi um jogo. De futebol. Bem jogado, com sete golos e espetáculo. Valeu a pena o bilhete, a viagem de avião e a estadia. Futebol é futebol.

com Sarah Saint-Maxent.

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