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É Desporto

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10 de Agosto, 2021

Ariel Torres. Das esmolas em semáforos à medalha em Tóquio

Rui Pedro Silva

Ariel Torres

A história de Ariel e da família Torres não é muito diferente da de milhões de imigrantes que esperam encontrar nos Estados Unidos o futuro que lhes foge nos países de origem. Não sabem muito bem como, quando, nem onde, mas partem em busca do mito do sonho americano. Ou simplesmente fogem de onde estão sem tempo para olhar para trás.

A família Torres saiu de Cuba, no início do século XXI, quando Ariel tinha quatro anos. Newark foi o primeiro destino mas, à semelhança de tantos outros imigrantes cubanos, fixaram-se na Florida, em Miami.

Foi também mais ou menos por esta altura que Ariel Torres começou a olhar para o karaté com paixão. Criança extrovertida, com energia para dar e vender, teve de encontrar algo que o ajudasse a direcionar a hiperatividade e a encontrar uma razão de ser. A sugestão desportiva veio de um médico.

A história a partir daqui poderia ter sido um conto de fadas. A mãe encontrou o dojo mais próximo da residência, Ariel apaixonou-se à primeira vista e foram vitórias atrás de vitórias em torneios até à estreia em Jogos Olímpicos, em Tóquio. Mas não foi assim, nunca é.

A família Torres não tinha sequer dinheiro para as viagens para os torneios e a alternativa teve de ser a mais humilde possível: pedir esmolas em semáforos praticamente no centro de uma movimentada Miami. Ariel tinha onze anos, vestia-se a rigor e passava horas a exibir os seus movimentos enquanto o pai mostrava um frasco para donativos.

A América suburbana, da classe média alta representada nos filmes, pode fazer o mesmo com balcões de limonada em jardins com relva perfeitamente tratada ou com ações de escuteiras de porta em porta com biscoitos de mil e um sabores, mas a vida real é sempre uma visceral e crua imitação da ficção. Ou a ficção é que é uma adaptação embelezada da dureza da vida.

Só o fim parece ter sido o mesmo. As horas a reunir dinheiro para a participação num torneio na Carolina do Norte surtiram efeito, houve capacidade para fazer a viagem e o pequeno Ariel Torres saiu da prova com as vitórias nas duas vertentes: kata e kumite.

«Nunca deixes que o dinheiro seja um problema. Vais sempre encontrar uma maneira, vamos arranjar uma solução e será esse sacrifício a fazer a diferença entre ti e os outros», disseram-lhe os pais.

A carreira, se é que se lhe pode chamar isso, estava lançada mas sem um objetivo à vista. Até que o karaté foi anunciado como modalidade olímpica a 18 de fevereiro de 2019. «Corri para a casa de banho, tirei as minhas cuecas e escrevi 'Olympics 2020'. Tenho andado a usá-las em todas as competições e depois de todas as vitórias. Usei-as e… bom, apurei-me para os Jogos Olímpicos», disse.

Ariel Torres não se limitou a garantir o apuramento. Foi um dos primeiros a subir ao pódio. Numa modalidade que atribuiu 32 medalhas, Ariel Torres foi o único norte-americano a subir distinguido, como medalha de bronze na prova masculina de kata.

«Há muita gente que me diz que no kata não faço mais do que esmurrar o ar. As pessoas pensam que as competições de artes marciais de kata são um pouco como o Bruce Lee – não se faz mais do que dar pontapés no ar num conjunto de movimentos padronizados. A verdade é que podes fazer kata com 100% da tua capacidade física, destruindo tudo à tua frente porque ninguém vai ficar magoado. No kumite tens limites. Há regras. Pode haver quem saia magoado. No kata, as possibilidades são infinitas», começou por dizer para defender a sua dama.

Quando as luzes se apagam e o desempenho começa, Ariel Torres sente-se imparável. «Todo o peso que tenho em cima de mim desaparece, as correntes caem no chão e fico livre para fazer tudo. Estou em liberdade para destruir o que me aparece pela frente da forma mais graciosa», garantiu em março de 2021.

Cinco meses depois, aceitou graciosamente a medalha de bronze. Os sacrifícios valeram a pena. «Os meus pais foram para os Estados Unidos em busca de uma vida melhor, sacrificaram tudo. Fizeram tudo por mim no karaté. Quem me dera que lhes pudesse retribuir com mais.»

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