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É Desporto

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18 de Agosto, 2021

António Marques. A importância de nunca desistir

Rui Pedro Silva

António Marques

«A minha ambição vai até onde a saúde me permitir. Apenas posso prometer trabalho. A época tem corrido bem, mas vamos ver. Até à última bola é jogo.» Esta declaração de António Marques, uma das lendas paralímpicas portuguesas, foi publicada na quarta edição da revista Paralímpicas, referente ao trimestre entre setembro a novembro de 2019.

De lá para cá, muita coisa mudou e António Marques não conseguiu ter uma última bola que lhe garantisse a presença nos Jogos Paralímpicos de Tóquio, à beira dos 58 anos. Não que a idade seja um problema – afinal Portugal vai ter um estreante no boccia, Manuel Cruz, dois meses mais velho do que António Marques.

Não calhou. Numa carreira marcada tantas vezes pelo sucesso da última bola, pela importância de nunca desistir, António Marques não conseguiu a presença que o ia deixar entre os melhores de sempre. E é tão difícil escolher por onde começar que vamos guardar um parágrafo específico para cada um dos feitos paralímpicos na carreira do experiente jogador de boccia… e não só.

António Marques é um dos 20 campeões paralímpicos por Portugal e um entre nove que o conseguiram ser mais do que uma vez.

António Marques é um de nove portugueses que conseguiram medalhas paralímpicas em mais do que uma modalidade e um de seis que o alcançaram na mesma edição (Seul-1988).

António Marques conquistou medalhas paralímpicas em seis edições diferentes (1988, 1996, 2000, 2004, 2008 e 2016 – falhou 1992 em competição e não esteve em Londres). Só Fernando Ferreira, também do boccia, conseguiu ser medalhado em mais edições – sete.

António Marques é, discutivelmente, o melhor atleta paralímpico português da história. Tem tantas medalhas como Fernando Ferreira (oito) e ninguém tem mais. Alcançou duas medalhas de ouro, três de prata e três de bronze, embora apenas duas tenham sido individuais, bronze no atletismo no lançamento de precisão em 1988 e prata no boccia em BC1.

E o que é a categoria BC1? Está destinada a «atletas com limitações severas ao nível dos braços, pernas e tronco, capazes de lançar a bola de forma autónoma mas limitada». «Podem competir com o auxílio de assistentes, que apenas podem ajustar a cadeira de rodas do jogador e entregar as bolas ao atleta se necessário», sendo também permitido o lançamento da bola com o pé.

A existência de um assistente dá azo a uma das histórias mais curiosas contadas por António Marques para a dissertação «A experiência vivida de atletas paralímpicos: narrativas do desporto paralímpico português», de Ana Isabel Castro Almeida e Sousa, de 2014.

«Recordo-me que o auxiliar que me foi acompanhar estava encostado a uma parede na prova e o boccia é um jogo tão parado que ele adormeceu. Quando me viraram a raquete para eu jogar, não sabia o que fazer. Na altura não percebia assim muito das regras, então nem sabia o que dizer. Só depois é que percebi que era para eu jogar e o meu auxiliar estava a dormir, por isso ainda tive de estar a chamar por ele», contou.

António Marques refere-se a um Mundial que decorreu na Bélgica, em 1986, na sua estreia internacional. Durante o torneio derrotou um adversário que ficou seu amigo para a vida. «Acho que a primeira vitória internacional foi com um dinamarquês. Hoje é meu amigo. Aliás, a primeira volta que eu dei numa cadeira de rodas elétrica foi na dele. Quando eu fui para a Bélgica, ainda andava numa cadeira de rodas Manuel. Falei com ele e ele lá me deixou experimentar a sensação. Foi uma maravilha mesmo!»

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