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É Desporto

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14 de Abril, 2020

Anton Geesink. O holandês que se intrometeu no judo

Especial Jogos Olímpicos (Tóquio-1964)

Rui Pedro Silva

Anton Geesink

Holandês era campeão do mundo mas os japoneses acreditavam que o seu império não seria contestado nos Jogos Olímpicos que estavam a organizar, em Tóquio. Geesink foi igual a si mesmo e garantiu a medalha de ouro na categoria mais importante da modalidade que se estreava no evento. Foi o único título que escapou ao anfitrião.

Takehide Nakatani venceu na categoria de 68 quilos, Isao Okano na de 80 quilos e Isao Inokuma na de mais de 80 quilos. Este tri nipónico tinha tudo para ser suficientemente importante para que os japoneses vissem na estreia do judo em Jogos Olímpicos um sucesso, mas foi insuficiente.

O orgulho estava em jogo na «categoria aberta», onde eram permitidos atletas de todos os pesos e na qual o holandês Anton Geesink se assumia como uma das principais ameaças à tradição japonesa. Por esta altura, o holandês já era uma figura bem conhecida. Tinha sido campeão mundial em Paris, em 1961, derrotando Koji Sone, e dispensava apresentações.

Vivia-se um período diferente. O judo não tinha a atenção mundial e o título em França tinha servido de pouco mais do que um aviso aos japoneses. Nada mais interessava do que o maior palco do desporto mundial, os Jogos Olímpicos. O facto de serem organizados em Tóquio levou a que o Comité Olímpico Internacional abrisse espaço para a estreia da modalidade e, catapultados pelo entusiasmo, os japoneses estavam à espera de fazer o pleno.

Não conseguiram. O primeiro aviso surgiu logo na ronda de qualificação, quando Anton Geesink derrotou a principal esperança dos nipónicos: Akio Kaminaga. A partir daí, os dois atletas seguiram caminhos diferentes mas reencontraram-se na final, a 23 de outubro. O pavilhão aguardou ansiosamente pelo triunfo de Kaminaga mas Geesink mostrou ser mais forte e venceu depois de nove minutos e 33 segundos de combate.

Foi um choque. Ali, no maior palco mundial, a supremacia japonesa tinha sido debilitada pela capacidade, talento e mérito de um holandês. A surpresa, transmitida em todo o mundo, é vista, ainda hoje, como o momento que lançou o judo para a ribalta e permitiu o sucesso da modalidade a nível global.

Deixou de ser um nicho nacional no Japão e a supremacia começou a ser contestada, com frequência, por outros países. Nos mais recentes Jogos Olímpicos, no Rio de Janeiro, o Japão manteve a supremacia, com três títulos mundiais num total de 12 medalhas, mas também houve espaço para França, Rússia, Itália, Estados Unidos, Brasil, Eslovénia, Argentina, República Checa e Kosovo conquistarem medalhas de ouro

Sendo um dos desportos nacionais do Japão, o judo continua ser um bastião nipónico, mas Geesink começou a mostrar ao mundo que havia algo a fazer. Foi um verdadeiro pioneiro e uma pedra no sapato da mentalidade nipónica. Depois do Mundial de 1961, Geesink foi levado para o Japão por um treinador para combater com inúmeros judocas japoneses à espera de que um o pudesse derrotar. Nenhum conseguiu. Nem ali, nem nos Jogos Olímpicos.

Anton Geesink ia ter um lugar especial na história. E conquistou-o por mérito próprio.

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