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É Desporto

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31 de Março, 2020

Alain Mimoun. Quando a sombra ganhou um lugar ao sol

Especial Jogos Olímpicos (Melbourne-1956)

Rui Pedro Silva

Alain Mimoun

Francês chegou aos Jogos Olímpicos de Melbourne, em 1956, com três medalhas de prata no atletismo nas edições anteriores. O que tinham estas três corridas em comum? Ficara sempre atrás de Emil Zatopek, a locomotiva humana. Na Austrália, finalmente, na prova da maratona, conseguiu ganhar um lugar ao sol e conquistar o tão ansiado título olímpico. Tinha quase 36 anos.

A história diz-nos que ninguém se lembra de quem ficou em segundo mas não é bem assim. Uma coisa é ficar em segundo uma vez, outra radicalmente diferente é quem faz escola em terminar repetidamente no primeiro lugar… dos últimos. Durante quatro anos essa foi a história do francês Alain Mimou nos Jogos Olímpicos. E sempre por causa do checoslovaco Emil Zatopek.

Tudo começou em Londres-1948, na prova dos 10 000 metros. Alain Mimoun garantiu uma medalha para a França mas terminou a final a 47,8 segundos do campeão. Sem hipótese. Quatro anos mais tarde, em Helsínquia, o gaulês de origem argelina surgiu com esperanças redobradas.

À semelhança da estreia, ia correr os 5000 e os 10 000. Mas, desta feita, sentia-se com capacidade para chegar ao pódio em ambas – em 1948 fora afastado nas eliminatórias de acesso à final dos 5000.

O reencontro com Zatopek deu-se precisamente nos 10 000 metros. O desfecho? O mesmo de sempre: recorde olímpico para o checoslovaco e Mimoun no segundo posto, a 15,8 segundos. Comparado com a edição anterior, onde terminara a mais de 300 metros do vencedor, era um enorme progresso. Mas insuficiente ainda assim.

Na prova mais curta, o ouro foi decidido até à última. Mimoun forçou Zatopek até ao último metro mas perdeu por oito décimas de segundo, num novo recorde olímpico para o adversário. O frente-a-frente era fatal para Mimoun: três duelos, três medalhas de prata.

Em 1956, na derradeira oportunidade, e já com 35 anos, Alain Mimoun juntou a maratona aos 10 000 metros. Na prova onde dera mais cartas, demonstrou que já não tinha a mesma capacidade, terminando em 12.º, a mais de um minuto e meio do vencedor, o soviético Vladimir Kuts. Na maratona, porém, a conversa foi diferente.

Havia Alain Mimoun. E havia Emil Zatopek. O checoslovaco era o campeão olímpico em titulo mas os problemas físicos não lhe permitiram alcançar melhor do que o sexto lugar, com duas horas, 29 minutos e 34 segundos. Ficou a mais de quatro minutos e meio da medalha de ouro, alcançada por… Alain Mimoun.

Com um tempo redondo de duas horas e 25 minutos, Mimoun despediu-se com a chave de ouro da sua carreira olímpica, conquistando a medalha que tentava há oito anos sem sucesso. O calor abrasador sobre o qual se disputou a prova pode ter servido de vantagem e Mimoun não se sentiu rogado.

A motivação estava nos píncaros. Tinha acabado de saber que nascera a sua filha e não conseguia ignorar o facto de esta ser a sua última oportunidade. A correr com o 13, um número que lhe dava sorte, fez uma prova irrepreensível e alcançou finalmente o desejado.

Os duelos com Zatopek foram tão memoráveis que Mimoun esperou que o seu adversário cruzasse a meta para lhe contar que também já era campeão olímpico. O checoslovaco, a recuperar de uma operação a uma hérnia, deu-lhe os parabéns e mostrou felicidade genuína. «Para mim, isso foi melhor do que uma medalha», recordou Mimoun.  

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