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É Desporto

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A conquista de Guimarães com Monty Python à mistura

Holanda-Inglaterra em Guimarães

Tinha tudo para ser uma batalha emocionante e não desiludiu. A chuva que caiu durante toda a tarde ajudou a aumentar o tom medieval, trazendo até Guimarães uma neblina que teimou em tornar o rival do campo mais distante e difícil de avaliar e, no final, o que fica é uma noite inesquecível.

 

Os mais aventureiros, soldados rasos destinados a sacrificar o corpo por um bem maior, ignoraram a chuva e deram espetáculo pelas ruas e largos da cidade-berço, habituada a estar no epicentro de conflitos monárquicos. Agora, tantos séculos depois, a mãe que sofreu na pele a sede independentista do filho Afonso foi substituída por uma rainha incapaz de liderar os seus súbditos na conquista de uma prova de seleções.

 

O GuimarãeShopping, tão perto do D. Afonso Henriques, foi o primeiro palco de antevisão do jogo. Foi a cobertura perfeita para fugir à chuva e, ao mesmo tempo, protagonizou um cenário de introspeção, calma, e desconfiança perante o rival do lado de lá. Havia mais bifes do que laranjas mas o reconhecimento da presença de adversários não desencadeava qualquer tipo de reação. Olhavam-se, estudavam-se, sabiam que iam estar em lados opostos da barricada, mas ainda não era altura. Qual Raul Solnado em busca da porta da guerra, sabiam que a batalha tinha hora marcada e não valia a pena estar a gastar forças antes de ser preciso.

 

As artérias que nos transportavam até ao coração da cidade mostravam a supremacia inglesa. De pé, de frente para a estrada, alinhados com orgulho, bebiam e cantavam a plenos pulmões o amor que tinham por Inglaterra. Com cervejas a quatro euros num posto de venda ambulante, aproveitavam o momento ao máximo.

 

O aproximar do jogo substituiu as filas pelo álcool pelas das portas de entrada. À boa forma moderna, era preciso ter a aplicação no telemóvel, ligar o bluetooth, ativar o bilhete recebido dias antes e mostrá-lo num primeiro posto de controlo. Depois, nova fila para a verdadeira entrada. Se umas portas pareciam estar destinadas a demorar longos minutos, outras (a nossa!) andavam a um ritmo perfeito.

Setores de adeptos ingleses tinham mais movimento

Lá dentro, os jogadores aqueciam músculos. Cá fora, adeptos faziam o mesmo com as vozes. E sim, os holandeses também podem ter fama de massa efervescente, mas nada bate os ingleses. Capazes de impor uma alma única num estádio, fazem mossa quando decidem deixar a sua marca. Não bastava estarem em maioria, têm também uma capacidade única para se fazerem ouvir.

 

Por todo o estádio, havia bandeiras inglesas espalhadas com as localidades de onde os próprios adeptos vinham. Tornou-se impossível não recordar o Euro-2004 e o Estádio da Luz naquela mágica noite de junho, quando Figo foi para o balneário, Deco mostrou que fazia magia até como lateral direito e aconteceu Postiga. E depois Rui Costa. E finalmente Ricardo.

 

Hoje, 15 anos depois, tudo não passa de memórias. Só mesmo Cristiano Ronaldo resiste. E ele não joga em Guimarães, tem lugar reservado no Dragão. E Holanda e Inglaterra, por esta altura, não podem fazer mais do que alimentar a chama de voltar a vencer uma prova sénior de seleções.

 

Sim, por muito que se queira desvalorizar a Liga das Nações, um título é um título e, uma vez lá dentro, ninguém quer perder. E, acrescentamos nós, cá fora também não se joga a feijões. A dinâmica de parada-resposta entre adeptos ingleses e holandeses atinge um patamar primoroso de sarcasmo e ironia.

 

A festa é dos ingleses. A forma apaixonada como cantam o hino – e mais tarde assobiam o holandês – é apenas o ponto de partida para uma noite com uma amplitude de emoções difícil de suportar. Quando o apito inicial se ouve, só há motivos para festa. Não se sente pressão, não se vê a vida a fugir por entre os dedos. O domínio inglês nas bancadas assume-se sob a forma de um cântico. «Your support, your support, your support is fucking shit!», gritam, imparáveis, na direção do setor onde estão os holandeses, mais calmos e menos ruidosos.

 

Mais tarde, rejubilam perante um passe completamente descabido de Ryan Babel e lançam-se de novo na direção dos holandeses: «You’re fucking shit! You’re fucking shit!». A guerra está longe do seu final, mas os ingleses estão a ganhar as primeiras batalhas todas. Segundos depois, os holandeses esboçam a reação perante uma ação completamente errada de Inglaterra em campo mas, aparentemente, não é nada que afete os adeptos rivais.

Até porque o 1-0 da Inglaterra, de penálti, nasce de um erro inacreditável da defesa holandesa. Tudo, tudo, mas mesmo tudo, parece correr de feição ao exército de Southgate e, como não podia deixar de ser, surge a habitual convicção, sob a forma de cântico, de que o futebol vai voltar a casa.

 

Mas havia ainda tanto para jogar e a Holanda demonstrava ser mais perigosa e assumir mais iniciativa em campo. Com calma, e uma paciência surpreendente, mesmo depois do contexto em que o primeiro golo foi sofrido, a Laranja Mecânica não abdicou dos seus princípios. Van Dijk era um dos primeiros elementos em destaque e, ao mesmo tempo, o catalisador de reações diametralmente opostas nas bancadas: os ingleses assobiaram-no da primeira à última intervenção, e os holandeses começaram a reagir com aplausos sempre que o central do Liverpool assumia o controlo da bola.

 

A euforia inglesa foi travada pela primeira vez quando De Ligt empatou na segunda metade da segunda parte. Num período em que as provocações entre adeptos tinham descido de tom – afinal, quando a pressão aperta, há uma menor disposição para perder tempo com «trivialidades» -, a Holanda relançou o jogo e deixou os ingleses à beira de um ataque de nervos. Seria possível que, uma vez mais, o sonho – mesmo numa prova secundária como a Liga das Nações – ficasse pela meia-final?

Os festejos do empate holandês

Talvez não! E foi por isso que festejaram loucamente o 2-1 na reta final do encontro. Abraçaram-se, fizeram saltar cadeiras, perderam a noção de onde estavam e de onde punham os pés. Era impossível voltar a falhar. Afinal, faltavam tão poucos minutos e o futebol ia (mesmo) regressar para casa. Mas as vozes da festa foram substituídas poucos instantes depois, quando o árbitro assinalou fora-de-jogo no lance do golo. O prolongamento era inevitável.

 

A tensão subiu de tom com a mesma velocidade com que a temperatura desceu no termómetro. Depois, numa retribuição da oferta do 1-0, a defesa inglesa abriu caminho para o golo da vantagem holandesa, carimbada com um autogolo de Kyle Walker.

 

Esta terá sido a primeira vez em que os holandeses perceberam que eram donos e senhores da guerra. Que a batalha mais importante estava conquistada: a da confiança. Os ingleses acusaram o toque e foram condenados a assistir impávidos enquanto a bancada laranja usava Monty Python para troçar do seu inevitável destino. «Always look on the bright side of life, turu, tu-ru, tu-ru, tu-ru!», cantavam, sentindo-se na perfeição a gargalhada na voz.

A Inglaterra perdeu o tino. Deixou de ter força dentro e fora de campo. Percebia-se que a Holanda tinha mais vontade, mais capacidade para fazer a diferença e, sobretudo, mais pernas. Os ingleses estavam derrotados no corpo e na mente. Atacando sem critério, limitavam-se a abrir caminho para que a Holanda ficasse com a final garantida ainda antes do apito final. Foi isso que aconteceu quando, aos 114 minutos, Quincy Promes fez o 3-1.

 

Os ingleses não quiseram ver mais e começaram a sair às dezenas em cada porta do estádio. Os holandeses voltaram a Monty Python e começaram a imaginar como será o Dragão no domingo contra Portugal. À saída, na rotunda do estádio, um inglês – dos poucos que ainda conseguiam falar – fazia uma triste profecia: «A Inglaterra NUNCA vai ganhar nada!».

 

O futebol não voltou a casa. Ainda não foi desta. A Inglaterra, depois de domingo, chegarão apenas os corpos cansados de adeptos ótimos para fazer a festa mas com uma tendência dramática para esvaziar egos das formas mais dolorosas.

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