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É Desporto

Sporting. A solução Jesus está a ser um problema

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Sucesso relativo da primeira temporada ajudou a camuflar o lado mau de ter Jorge Jesus como treinador. Preparação da terceira temporada só será feita depois de solução de compromisso entre o que o treinador quer e o que o clube precisa.

 

Maximização da formação

 

Jorge Jesus foi um treinador ganhador no Benfica. Por muito que se repitam os argumentos de ter perdido três campeonatos consecutivos ou de ser um ativo muito caro, é incontornável reconhecer o mérito ao homem que chegou ao Luz depois de os encarnados terem terminado no terceiro lugar pelo quarto ano consecutivo.

 

E foi por ser ganhador – e por o ter demonstrado desde o início na Luz – que Luís Filipe Vieira foi sucessivamente aumentando a margem de manobra e cedendo aos caprichos de um treinador-autor com uma ideia muito inflexível para aquilo que quer e, ao mesmo tempo, capaz de se readaptar após os golpes mais duros (veja-se evolução a partir de 2013).

 

A questão da formação nunca deixou Jesus descansado. Ter uma boa formação é a forma mais barata de conseguir maximizar o sucesso tanto no campo como nas finanças. Na Luz, Jorge Jesus nunca foi capaz disso. É legítimo considerar que não teve grandes oportunidades nos primeiros anos mas hoje, anos depois, o fantasma de Bernardo Silva, com alguma falácia à mistura, continua a pairar.

 

Esse foi sempre o maior problema de Luís Filipe Vieira. Por cada entrevista em que prometia o aumento da influência na formação, Jesus obrigava-o a desmentir-se perante desejos caros e caprichos de satisfação obrigatória. O presidente teve responsabilidade – tem sempre – mas cedeu por ser incapaz de ter uma posição mais firme. E quando Jorge Mendes lhe estendeu a mão com uma solução para rentabilizar financeiramente a aposta na formação, tudo se tornou mais simples.

 

Não nos enganemos. Vieira temia a substituição de Jesus. E devia fazê-lo. Por mais que considerasse que a famosa estrutura estava a ganhar preponderância, era impossível prever como reagiria a equipa dentro de campo com um novo homem do leme. E Rui Vitória, por muito benfiquista e boa pessoa que fosse, não era uma aposta completamente segura. Mas isso foi o que se passou no Benfica. Agora a questão é o Sporting.

 

O jogo da corda com Bruno de Carvalho

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Jorge Jesus chegou a um impasse na relação com o treinador do Sporting na passagem de 2017 para 2018. O insucesso na Liga dos Campeões, as eliminações na Taça de Portugal e Taça da Liga e o adeus à disputa do campeonato mostrou que o forte investimento feito no verão de 2016 não tinha tido retorno.

 

É fácil falar depois. Markovic, Campbell e Elias encabeçaram uma longa lista de ativos caros, com qualidade e talento, mas com sinais de alerta que não podiam ser ignorados. Na altura, apesar das saídas de Slimani e João Mário, o Sporting estava confiante. E a opinião pública e publicada parecia ser consensual ao apontar os leões como grandes candidatos ao título, sobretudo depois de arrancar a época com quatro vitórias consecutivas no campeonato.

 

De setembro a janeiro tudo mudou. O aumento da folha salarial foi um fracasso e foi preciso fazer marcha-atrás. Sim, Jorge Jesus manteve a aposta em Gelson Martins e Ruben Semedo, mas havia uma nova fornada a dar nas vistas. Palhinha, Geraldes e Podence destacaram-se no Belenenses e Moreirense e viram o regresso a Alvalade ser antecipado por força das circunstâncias.

 

É isso que a história demonstra. São os maus momentos que mais facilmente proporcionam a aposta em jogadores da formação. João Mário, Tiago Ilori, Eric Dier e Bruma estrearam-se pelos leões no período entre 2011 e 2012 numa altura em que o Sporting tinha mais dificuldades.

 

Com outro fôlego financeiro e desportivo é mais fácil esquecer a formação. Mas Bruno de Carvalho sente o mesmo que Luís Filipe Vieira sentia. Rentabilizar desportiva e financeiramente um ativo da formação é muito mais fácil e com menor grau de risco do que fazer o mesmo com um sul-americano cuja contratação pode significar desde logo o salário de três jogadores promissores oriundos das camadas jovens durante cinco anos.

 

Como compor o próximo plantel?

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Jorge Jesus quer sempre o melhor para cada posição e raramente julga que o melhor está dentro de portas. Bruno de Carvalho admite o investimento mas não ignora a sensação consensual que nomes como Francisco Geraldes e Iuri Medeiros merecem mais do que tiveram até ao momento.

 

E Jorge Jesuspode não ser o treinador indicado para permitir esta metamorfose no plantel leonino. O sexagenário pode engolir o orgulho e acolher os jogadores no plantel, como fez com Geraldes, mas se o fizer contrariado de nada servirá.

 

Bruno de Carvalho e Jorge Jesus querem estar em sintonia. O presidente não se importará de manter o salário se souber que o técnico está disposto a abraçar a aposta mista nas pérolas da formação, com contratações específicas e sem pôr em causa o sucesso desportivo. O treinador até pode gostar de Alvalade mas não está disposto a ter de se contentar com Palhinha e Geraldes caso, por exemplo, William e Adrien saiam.

 

É este jogo de cintura que os dois terão de fazer até encontrar o caminho necessário. A batata quente está sempre do lado da direção mas Jorge Jesus é um nome de peso. Poucos como ele conseguem rentabilizar um plantel, dentro e fora de campo, e a sua substituição nunca será fácil.

 

A verdade é esta: por muito que a relação com Marco Silva tenha sido problemática, Bruno de Carvalho fez três escolhas boas de treinadores. A estatística é indesmentível: está cada vez mais próximo de fazer uma opção errada. É a lógica crua mas verdadeira da matemática e com a qual António Salvador tem tido tantos dissabores mais recentemente.

 

Resultado final

 

Bruno de Carvalho e Jorge Jesus querem o melhor para a equipa mas poderão não ser capazes de chegar a acordo no que isso significa. Os eventuais recados que cada lado da batalha vai dando cá para fora de pouco interessa se, chegada a hora, os dois responsáveis chegarem a um entendimento mútuo sobre o que acontecerá no próximo verão.

 

Luís Filipe Vieira só se sentiu capaz de esticar a corda na negociação quando se convenceu que Rui Vitória era a escolha indicada para a sucessão. No caso de Alvalade é fácil falar em nomes mas tudo passa pela confiança de quem faz as decisões. Se o presidente não se sentir à vontade com os perfis de Vítor Pereira ou de outro qualquer, dificilmente não será refém das exigências e habitual chantagem de Jorge Jesus, com o fantasma FC Porto novamente no cenário.

 

O orgulho será o derradeiro argumento a ter em conta. Tanto Bruno de Carvalho como Jorge Jesus querem que a dupla tenha sucesso em Alvalade. E sucesso significa conquistar o título de campeão. Qualquer outro cenário fará com que o Benfica saia vencedor da guerra quente que marcou toda a temporada 2015/2016, com especial atenção para o momento em que o técnico decidiu ir para Alvalade.

 

Muitos milhões depois, se Jesus abandonar Alvalade apenas com uma Supertaça e o Benfica bicampeão, não haverá dúvida sobre quem saiu por cima. Por outro lado, a saída de Jesus poderá trazer outra tranquilidade a uma relação de conflito entre dois clubes incapazes de cortar o cordão umbilical após a traição.

 

RPS

 

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